"New Forever"

Ano: 2020
Selo: Terrible Records
Gênero: Dream Pop, Ambient Pop, Experimental
Para quem gosta de: Grouper e Julianna Barwick
Ouça: Cul de Sac e New Forever
Nota: 7.5

Crítica | Trayer Tryon: “New Forever”

Como integrante do Hundred Waters, Trayer Tryon esteve envolvido em uma série de obras marcadas pelo completo refinamento dos arranjos, texturas e inserções sempre detalhistas. São registros como o elogiado The Moon Rang Like A Bell (2014), disco que apresentou o som produzido pelo grupo norte-americano a uma nova parcela de ouvintes, além de outras criações também regidas pelo mesmo preciosismo. Satisfatório perceber nas canções de New Forever (2020, Terrible Records), primeiro álbum do multi-instrumentista em carreira solo, um tratamento bastante similar, porém, partindo de uma abordagem criativa completamente distinta.

Composto durante um período de forte instabilidade emocional de Tryon, o álbum gravado após o termino de um relacionamento de seis anos parece pensado para acolher e confortar o ouvinte. São canções marcadas pelo reducionismo dos arranjos, delicadas paisagens instrumentais e inserções discretas que surgem e desaparecem durante toda a execução do álbum, forçando uma audição atenta por parte do público. Instantes em que o artista estadunidense transforma as próprias emoções em música, mesmo utilizando das vozes como componente quase instrumental.

Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do disco, na faixa-título do trabalho. Uma das primeiras criações do álbum a serem apresentadas ao público, a canção de essência atmosférica encontra no canto etéreo da Julie Byrne um precioso elemento de transformação. São ondulações sensíveis, como se íntimas do material entregue no último registro de inéditas da artista, Not Even Happiness (2017), porém, completas pelos sintetizadores e instantes de maior experimentação conduzidos por Tryon, proposta que muito se assemelha ao trabalho de Grouper no delicado Ruins (2014).

Esse mesmo cuidado e profunda beleza acaba se refletindo minutos à frente, na também colaborativa Cul de Sac. Completa pela presença de Jónsi, vocalista e líder do Sigur Rós, o compositor e produtor Alex Somers, o músico Moses Sumney, a cantora Julianna Barwick, e Nicole Miglis, parceira de banda no Hundred Waters, a canção de quase seis minutos reflete a precisão de Tryon no encaixe de diferentes retalhos instrumentais, cantos e ambientações etéreas. São camadas e mais camadas de doce melancolia, sensação que vai do tratamento dado aos sintetizadores ao uso das vozes durante toda a execução da faixa.

Entretanto, é justamente quando surge solitário pelo interior do álbum, como na já conhecida Rua dos Pioneiros, que o trabalho de Tryon encanta e cresce. Pouco menos de três minutos em que o dedilhado sublime do músico norte-americano passeia em meio a ambientações empoeiradas e captações de campo, trazendo uma atmosfera quase visual para dentro do disco. A própria faixa de encerramento da obra, Using The Sky, mesmo marcada pela densa sobreposição dos elementos, não deixa revelar uma série de pequenos detalhes e vozes que se manifestam de forma discreta por entre as nuvens de sons.

Claro que esse evidente esmero de Tryon não isenta o trabalho de alguns tropeços pontuais e faixas que parecem deslocadas do restante da obra. É o caso de Konstantine, com seus sintetizadores desconcertantes, como uma parcial fuga do disco. Mesmo Codependents EU Tour, com vocalizações e temas detalhistas, parece pouco expressiva quando próxima de outros exemplares do gênero apresentados nos últimos meses, vide o fino repertório de Healing Is A Miracle (2020), da convidada Julianna Barwick. Pequenos desajustes que, pouco a pouco, diminuem a real beleza e alcance da obra.