"Trovão"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, MPB
Para quem gosta de: Xênia França e Tássia Reis
Ouça: Gira, Climão e Aceita
Nota: 8.0

Crítica | “Trovão”, Larissa Luz

Três anos após o lançamento do político Território Conquistado (2016), obra em que discute empoderamento negro, racismo e ancestralidade feminina, Larissa Luz está de volta com um novo e necessário trabalho de estúdio. Em Trovão (2019, Independente), a cantora, compositora e atriz baiana segue exatamente de onde parou no último registro autoral, mergulhando na composição de um material dominado pelo peso das batidas, versos fortes e essência ritualística. “Macumba pop”, como resume o texto de apresentação, produto da criativa desconstrução estética que vem sendo aprimorada pela artista desde o primeiro álbum em carreira solo, Mudança (2012).

Concebido em parceria com o produtor Rafa Dias, o trabalho de 13 faixas é, como a própria cantora explicou em entrevista, “um convite a conexão com a natureza mesmo partindo da vivência nos grandes centros urbanos“. Melodias, batidas e vozes que se projetam como “um chamado para a percepção e identificação das claves rítmicas que nasceram na África dentro de um contexto atual e futurista. Um elo entre passado e futuro. Algo novo sem ignorar o que fomos ou de onde partimos. Um manifesto contra qualquer prática violenta na direção das religiões de matriz africana“, completa.

Síntese desse criativo processo de transformação e busca por novas possibilidades ecoa com naturalidade em Gira, quinta composição do disco. “A cada passo pra frente / A casa grande treme / Entro na sua mente / Vê se não quebra a corrente / Pegue a coragem / Junte com a sua fúria / Vejamos a mistura / Vamos botar o bloco na rua“, convoca em um misto de canto e rima, estrutura que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução da faixa. São versos políticos que se espalham em meio a retalhos eletrônicos, batidas e ambientações cíclicas, como uma interpretação futurística de elementos puramente orgânicos.

Sem necessariamente perverter a própria essência e o lirismo afiado que vem sendo moldado desde a estreia com Mudança, Luz vai do trap ao experimentalismo eletrônico em uma linguagem frenética, quente. Da abertura do álbum, em Aceita, passando pela poesia cíclica de Lama, o minimalismo de Abala ou mesmo a base tribal que invade Hipnose, cada fragmento do disco parece pensado de forma a capturar a atenção do ouvinte. Um criativo cruzamento de ideias que vai dos terreiros de umbanda às pistas de dança.

Mesmo a criteriosa seleção de colaboradores que surgem ao longo da obra parece pensada de forma a contribuir para o ambiente ritualístico que rege o disco. São nomes como Gabi Guedes, em Macumba, Luedji Luna, na crescente Climão, Letieres Leite, no reducionismo eletrônico de Rito e, principalmente, o veterano Lazzo Matumbi, dono da voz na atmosférica Corpo São, Mente Sã. A própria Ellen Oléria, sempre marcada pela composição de temas fortes, naturalmente íntimos da MPB tradicional, parece entregue ao conceito do álbum, ocupando os versos da derradeira Acreditar.

O resultado desse forte comprometimento artístico está na produção de um trabalho que preserva a essência dos antigos registros de Larissa Luz, porém, se permite avançar criativamente. Entre versos marcados pela forte religiosidade, batidas trabalhadas de maneira torta e instantes de profunda experimentação, cada elemento do disco serve de complemento ao conceito ritualístico que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Pequenas corrupções estéticas que ampliam tudo aquilo que a artista baiana vem aprimorando desde o ensaio criativo em Mudança e Território Conquistado.



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