"Sketchy"

Ano: 2021
Selo: 4AD
Gênero: Indie Pop, Pop Rock, Art Rock
Para quem gosta de: Dirty Projectors e Deerhoof
Ouça: Hold Yourself e Hypnotized
Nota: 7.5

Crítica | Tune-Yards: “Sketchy”

Quando se tem em mãos uma obra tão icônica quanto W h o k i l l (2011), difícil não criar expectativa ou buscar por possíveis aproximações a cada novo trabalho de estúdio. E é exatamente isso que Merrill Garbus teve que lidar desde que revelou ao público o disco responsável por apresentar a obra de Tune-Yards a uma parcela ainda maior de ouvintes. Mesmo em busca de novas possibilidades criativas, conceito reforçado nos sucessores Nikki Nack (2014) e I Can Feel You Creep Into My Private Life (2018), tudo parece apontar para o repertório entregue pela artista há dez anos. Não por acaso, para o lançamento de Sketchy (2021, 4AD), quinto e mais recente álbum de estúdio, a musicista norte-americana decidiu resgatar parte da atmosfera e sonoridade incorporada ao elogiado registro.

Mais uma vez acompanhada pelo multi-instrumentista e parceiro de banda Nate Brenner, com quem tem colaborado desde a divulgação do introdutório Bird-Brains (2009), Garbus reserva ao público um registro que concentra o que há de melhor na obra do Tune-Yards. Da fluidez dos vocais, sempre crescentes e ensolarados, passando pelo uso fragmentado da percussão, sintetizadores e tratamento melódico dado às guitarras, tudo soa como uma natural continuação de tudo aquilo que a artista norte-americana tem produzido desde os primeiros registros autorais. Canções que parecem pensadas para grudar na cabeça do ouvinte logo nos minutos iniciais, direcionamento que embala a experiência do ouvinte até a música de encerramento do trabalho, a psicodélica Be Not Afraid.

A principal diferença em relação aos antigos trabalhos do Tune-Yards, incluindo o cultuado W h o k i l l, está no forte direcionamento político que orienta a composição das letras. São canções marcadas pelo peso do machismo e o discurso conservador que ecoa para além do recém-desfeito governo de Donald Trump. E isso se reflete logo nos primeiros minutos do álbum, na já conhecida Nowhere, Man. “Parece Jesus e Dylan / Entendi tudo errado / Se você não pode ouvir uma mulher / Então, como você pode escrever uma música sobre ela?“, questiona Garbus em meio a versos que discutem o retrocesso na lei anti-aborto no estado do Alabama, além, claro, de outras tentativas de domínio masculino em relação aos corpos femininos, conceito que volta a se repetir de forma pontual ao longo da obra.

Exemplo disso acontece em Silence Pt. 1 (When We Say ”We”), música adornada pelas habituais harmonias de vozes de Garbus, porém, completa pelo lirismo contestador que corre por entre os versos da canção. “Há um segredo que guardo / Quando você pensa que estou chorando / Eu sou uma gota no oceano / Eu sou um punho de muitos dedos“, canta. É como se a artista incorporasse o mesmo direcionamento criativo expresso em obras como More Songs About Buildings and Food (1978) e Fear of Music (1979), do Talking Heads. Composições que encantam pelo evidente refinamento melódico e uso pouco convencional dos instrumentos, mas nunca vazias, efeito direto da poesia questionadora e conflitos pessoais incorporados mesmo nos momentos de maior celebração do material.

São justamente esses pequenos contrastes que tornam a experiência de ouvir o trabalho tão satisfatória. Canções marcadas pela criativa colagem de ritmos, elementos que vão do R&B ao pop africano, porém, sempre pontuadas por momentos de maior melancolia e conflitos vividos por Garbus. É o caso Hold Yourself. Entre melodias que evocam Prince e metais que ampliam tudo aquilo que foi apresentado em W h o k i l l, versos marcados pelo futuro pessimista embalam a experiência do ouvinte. “Eles nos mantém próximos e queridos / E nos contam mentiras que vêm dizendo a si mesmos há anos / Eles vão me sufocar então eu / Vou me segurar agora“, canta. Esse mesmo direcionamento acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra, como em My Neighbor e até na colorida Hypnotized.

Ponto de equilíbrio entre o que há de mais acessível e louco na obra de Tune-Yards, Sketchy traz de volta uma série de elementos que apresentaram o som produzido pela artista norte-americana, como as melodias e estruturas tortas, porém, partindo de uma abordagem criativa completamente nova, principalmente quando voltamos nossos ouvidos para as letras de cada composição. Claro que isso não interfere em um problema bastante significativo da banda, como a falta de ritmo e inconsistência das músicas que recheiam a segunda metade do trabalho. Instantes em que Garbus e Brenner se perdem em meio a experimentações e formas inexatas que talvez funcionem para os dois realizadores, mas que dificilmente parecem se relacionar com o ouvinte.

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