"U.F.O.F."

Ano: 2019
Selo: 4AD
Gênero: Indie, Folk Rock
Para quem gosta de: Angel Olsen, Elliott Smith e Lucy Dacus
Ouça: Orange, Cattails e From
Nota: 8.6

Crítica | “U.F.O.F.”, Big Thief

U.F.O.F. (2019, 4AD) é o princípio de um lento processo de desconstrução criativa e redescoberta da própria identidade musical de Adrianne Lenker. Terceiro álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana em colaboração com os demais integrantes do Big Thief, Buck Meek, Max Oleartchik e James Krivchenia, o trabalho consumido pela força dos sentimentos, memórias e experiências particulares da artista preserva e, ao mesmo tempo, corrompe tudo aquilo que o grupo vem produzindo desde o atmosférico Masterpiece (2016). Um minucioso exercício autoral que passa pelo trabalho da cantora em carreira solo e tinge com novidade cada novo movimento orquestrado pelo quarteto nova-iorquino.

Não por acaso, Lenker decidiu resgatar diferentes composições originalmente testadas durante o lançamento do delicado Abyskiss (2018), último registro de inéditas em carreira solo. Músicas como From e Terminal Paradise em que a artista preserva a essência confessional dos versos, porém, se permitindo provar de novas possibilidades e temas instrumentais, estrutura que amplia de maneira expressiva a força da obra com o Big Thief. Do uso destacado das guitarras e captações ruidosas, passando pela formação de temas bucólicos e diálogos improváveis com a produção dos anos 1970, cada elemento do disco conduz o ouvinte para além dos limites inicialmente impostos durante a execução do antecessor Capacity (2017).

Parte desse evidente processo de transformação vem da forma como o próprio álbum foi concebido. Para a produção do disco, o quarteto, em conjunto com o produtor Andrew Sarlo (Hand Habits, Empress Of), decidiu se isolar em um estúdio montado no celeiro de uma fazenda na cidade de Woodinville, interior do estado de Washington. Como efeito do natural recolhimento da banda e maior contato com a natureza, surgem faixas marcadas pelo refinamento bucólico dos arranjos e temas instrumentais. São melodias detalhistas que distanciam a banda da atmosfera caseira dos primeiros discos para provar de elementos do cancioneiro norte-americano e, principalmente, da melancolia psicodélica dos anos 1970.

Exemplo disso está em Cattails, música que preserva a essência dos antigos trabalhos da banda, porém, mergulha em uma série de novos conceitos inicialmente testados por veteranos como Neil Young e Nick Drake. São ambientações acústicas que se completam pela inserção de guitarras carregadas de efeitos, conceito destacado logo nos primeiros minutos do disco, na introdutória Contact. No minimalismo de Open Desert, camadas de sintetizadores e percussão cristalina, estrutura que engrandece os versos lançados pela vocalista. Mesmo músicas já conhecidas da cantora, como a já citada From, contam agora com uma novo catálogo de texturas e inserções complementares. É possível passar horas esmiuçando cada elemento ou mínima inserção espalhada pelo álbum.

Mesmo dentro desse universo de pequenas transformações, a beleza de U.F.O.F. continua residindo na poesia intimista de Lenker. “Laranja é a cor do meu amor / Vento laranja e frágil no jardim / Frágil significa que eu posso ouvir sua carne / Chorando pequenos rios em seu antebraço“, canta em Orange, perfeita síntese do lirismo agridoce que recheia o trabalho. Como indicado no título da obra — em português, Objeto Voador Não Identificado e Amigo —, grande parte do registro busca inspiração em vivências recentes de sua realizadora. São poemas musicados que discutem novas amizades e a incerteza que move as relações humanas durante os primeiros encontros, estrutura que parte da mente inquieta da vocalista para mergulhar em personagens mundanos, como em Strange e na delicada Jenni.

Por vezes íntimo da mesma atmosfera melancólica que embala obras como Either/Or (1997), de Elliott Smith, e Moon Pix (1998), de Cat Power, efeito direto da fina tapeçaria instrumental que cobre toda a superfície do registro, U.F.O.F. encanta justamente pela capacidade de Lenker em lidar com as próprias emoções de forma simples, dialogando de maneira intimista e direta com o próprio público. São harmonias e vozes que se espalham em uma medida própria de tempo, sem pressa, como se os integrantes da banda transportassem o ouvinte para dentro do mesmo cenário acolhedor em que o trabalho foi concebido.