"Us"

Ano: 2019
Selo: Back Lot Music
Gênero: Experimental, Instrumental
Para quem gosta de: Brian McOmber e Jóhann Jóhannsson
Ouça: Anthem e Human
Nota: 8.0

Crítica | “Us”, Michael Abels

Invariavelmente, um grande filme de terror utiliza de uma série de artifícios para crescer e, consequentemente, aterrorizar o espectador. Da minúcia na composições do roteiro, passando pela atmosfera proposta pelo diretor ao domínio de cada interpretação, não são poucos os componentes que contribuem para a consolidação de uma grande obra do gênero. Entretanto, mesmo dentro desse universo de pequenas variáveis, sobrevive no bom uso da trilha sonora (ou completa inexistência dela) um dos fragmentos mais significativos de todo esse processo criativo.

Satisfatório perceber na construção de Nós, segundo e mais recentemente película dirigida por Jordan Peele, um exercício sonoro que não apenas acompanha a narrativa do filme, como serve de complemento à obra. Para a trilha sonora do trabalho, o diretor norte-americano contou com a colaboração do compositor Michael Abels, com quem já havia trabalhado durante a produção do antecessor Corra! (2017). O resultado dessa parceria está na entrega de um material que dialoga diretamente com a trama protagonizada por Lupita Nyong’o, estímulo para o som que encolhe e cresce de forma perturbadora a todo instante.

Claramente inspirado pela trilha sonora de clássicos do gênero nos anos 1980, onde se passa parte da ação do filme, Abels parece interpretar de forma autoral uma série de elementos consolidados há três ou mais décadas. Vem daí a faixa de abertura do disco, com seu coro de vozes ritualísticas, estrutura que dialoga de maneira explícita com One, Two, Freddy’s Coming For You, uma das principais composições de A Hora do Pesadelo (1984). São inserções pontuais que aparecem em momentos estratégicos da obra, reforçando a tensão que cresce de maneira desmedida, vide a climática e, ao mesmo tempo, delirante Human.



Essa mesma atmosfera de tensão cresce no uso contrastados dos arranjos de cordas. São pequenos duelos instrumentais gerados pelo choque entre violinos e violoncelos, abordagem reforçada em uma das principais composições do disco, a crescente Pas De Deux, música que ainda se abre para a utilização de sintetizadores densos, no melhor estilo Hans Zimmer. Músicas organizadas em um curto intervalo de tempo, porém, marcadas pelo detalhismo dos arranjos e propositado uso de curvas rítmicas, direcionamento evidente em faixas como News Report, Spark In The Closet e na instável Femme Fatale.

Outro elemento de destaque no trabalho diz respeito ao uso da percussão incorporada por Abels. Do momento em que tem início, na já citada faixa de abertura, passando pela curtinha Beach Walk, Home Invasion e Run, perceba como o produtor utiliza das batidas não como um elemento rítmico, mas como um estímulo direto ao ambiente claustrofóbico da obra. Inserções pontuais ou mesmo sequências insanas que servem de complemento à base orquestral de cada canção.

Conceitualmente amplo, direcionamento reforçado pela curiosa adaptação de I Got 5 On It, música originalmente composta pela dupla Luniz, Nós parece seguir a mesma abordagem de outros registros recentes do cinema de horror, como o jazzístico Heréditário (2018), de Colin Stetson, ou mesmo a ambientação frenética de A Corrente do Mal (2015), obra que conta com a assinatura de Disasterpeace. Trabalhos que preservam a essência criativa de seus realizadores, porém, dialogando a todo momento com a construção das imagens lançadas na tela.



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