"Vagabon"

Ano: 2019
Selo: Nonesuch
Gênero: Indie Rock, Soul, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Empress Of e Blood Orange
Ouça: Flood e Every Moon
Nota: 7.8

Crítica | Vagabon: “Vagabon”

Quando surgiu com o primeiro álbum de estúdio da carreira, Infinite Worlds (2017), Laetitia Tamko parecia saber exatamente que direção seguir dentro de estúdio. Da construção das guitarras, logo na inaugural The Embers, passando pela entrega de músicas como Fear & Force e Cold Apartment, evidente era o esforço da cantora e compositora camaronesa em transformar um limitado conjunto de experiências instrumentais na base para o próprio trabalho. Composições talvez econômicas na montagem dos arranjos, porém, sempre tocantes, resultado da poesia intimista que orienta a obra da multi-instrumentista africana.

Interessante perceber nas canções do segundo e mais recente álbum de Tamko o princípio de um novo direcionamento criativo. Nada homogêneo em relação ao material entregue há dois anos, o trabalho se espalha em meio a instantes de sutil experimentação, como se a cantora brincasse com as possibilidades a cada nova faixa. Pouco mais de 30 minutos em que Vagabon vai do pop atmosférico dos anos 1980 ao soul em uma linguagem sempre particular, cuidado que se reflete até a música de encerramento do disco, Full Moon In Gemini (Monako Reprise).

Exemplo disso está logo na abertura do disco, na sequência formada pela introdutória Full Moon In Gemini e Flood. São pouco mais de seis minutos em que Tamko parte de uma composição puramente atmosférica para um som crescente, adornado pela inserção de temas eletrônicos e delicadas camadas instrumentais. “Eu quero fazer você transbordar em minhas mãos / Transbordar em meu coração / Eu quero te deixar / Eu quero te deixar / Em vez de mim / Em vez do meu coração“, confessa em um doloroso jogo de emoções que se completa pela inserção de sintetizadores e batidas destacadas, como uma parcial fuga do som produzido no disco anterior.

O mesmo direcionamento acaba se refletindo na acessível Water Me Down. Do uso dos sintetizadores à lenta composição das batidas, Tamko parece brincar com a desconstrução do material entregue no último disco. São variações instrumentais que se entregam ao pop em uma estrutura quase dançante, como uma tentativa da artista em dialogar com o mesmo som produzido por contemporâneos como Empress Of e Blood Orange. São colagens instrumentais que se revelam ao público em pequenas doses, estímulo para a produção de faixas como a também acessível Wits About You.

Partindo desse direcionamento plural, Tamko entrega ao público desde canções marcadas pela utilização de melodias acústicas, como na minimalista In a Bind, até músicas que se espalham em meio a saxofones e intrincados temas instrumentais, caso de Please Don’t Leave The Table. Nada que se compare ao material entregue em Every Woman. Da construção dos versos, marcados pelo discurso feminista (“Todas as mulheres que conheço estão cansadas / Eles apenas levantam os pés / Porque não temos medo da guerra que provocamos / E estamos firmes, mantendo todos vocês“), à lenta composição dos arranjos, perceba o cuidado da artista durante toda a execução da faixa.

Conceitualmente diverso, como uma parcial fuga do material apresentado durante o lançamento de Infinite Worlds, o novo álbum mostra o esforço da cantora e compositora camaronesa em ampliar os próprios limites dentro de estúdio. Se há dois anos Tamko parecia seguir um limitado conjunto de ideias, difícil não perceber nas canções do presente disco a passagem para um universo musicalmente amplo. São variações instrumentais que transitam por entre diferentes décadas e gêneros conceitualmente distintos, fazendo do lirismo confessional da artista o principal elemento de conexão entre as faixas.



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