"Singular"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Pop Rock, Indie Rock
Para quem gosta de: Ludov, Tiê e Tulipa Ruiz
Ouça: À Queima-Roupa e Hoje
Nota: 7.0

Crítica | Vanessa Krongold: “Singular”

Em um cenário dominado pela presença masculina, a voz forte de Vanessa Krongold revelou ao público um mundo de novas possibilidades, temas e experiências sentimentais. São registros preciosos, como Dois a Rodar, Kriptonita, Princesa e todo um fino repertório que fez da vocalista do Ludov um dos nomes mais importantes da cena alternativa no início dos anos 2000. Composições sempre regidas por desilusões amorosas, conflitos existencialistas e instantes de profunda entrega emocional, proposta que volta a se repetir com a chegada do primeiro álbum da cantora e compositora em carreira solo, o confessional Singular (2020, Independente).

Produto de um lento processo de gestação que teve início ainda na década passada, com o lançamento de Instante, o registro de nove faixas traz de volta a essência dos antigos trabalhos de Krongold com o Ludov, porém, utilizando de um novo direcionamento conceitual. São faixas que partem de inquietações e outros conflitos particulares vividos pela artista de forma sempre acessível, estrutura que se reflete no lirismo descomplicado que serve de sustento ao disco, estímulo para formação dos arranjos que contam com produção de Emerson Martins (Stop Play Moon, Venus Volts).

E isso se reflete logo nos primeiros minutos do trabalho, na inaugural À Queima Roupa. Escolhida para apresentar o álbum, a canção parte de uma base reducionista, porém, cresce à medida em que Krongold mergulha fundo nos próprios sentimentos. “Um instante de glória pra quem quiser ganhar / Guerras das quais ninguém quer lembrar / Mais vale a vitória nas mãos da solidão, que seguir lutando em vão“, canta. São versos regidos pela completa vulnerabilidade da artista paulistana, estrutura que se completa pela inserção das guitarras e o violino de Fernanda Kostchak, do Vanguart.

É partindo dessa mesma estrutura que Krongold e seus parceiros de estúdio orientam a experiência do público até o encerramento da obra. Canções dotadas de uma arquitetura econômica, porém, maiores e mais complexas a cada novo movimento da cantora. Exemplo disso acontece em Concreto, música adornada pelo uso de guitarras crescentes e orquestrações pontuais, como um complemento à voz da cantora. A própria Hoje, uma das primeiras faixas do disco a serem apresentadas ao público, segue o mesmo direcionamento, cercando o ouvinte em uma medida própria de tempo, sem pressa.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, Krongold se permite provar de novas possibilidades dentro de estúdio. É o caso de Menú Del Día, sétima faixa do disco. De essência latina, a canção deixa de lado o pop rock pegajoso do restante do álbum para mergulhar em um tango melancólico e atmosférico, como uma propositada fuga do restante da obra. O mesmo tratamento acaba se refletindo na derradeira Recomeço, música que desacelera quando próxima de outras composições ao longo do trabalho, porém, sustenta nos versos um dos momentos de maior entrega da artista.

Entretanto, mesmo pontuado por instantes de maior transformação, Singular em nenhum momento ultrapassa o que parece ser um limite pré-definido na introdutória À Queima Roupa. São canções que evocam o mesmo pop rock que revelou o trabalho de Krongold no final da década de 1990, quando ainda se apresentava como integrante do Maybees, porém, alimentadas por diferentes temáticas e experiências sentimentais. Um misto de passado e presente que talvez desagrade a quem esperava por uma abordagem totalmente renova, mas que deve acertar em cheio aos antigos seguidores da cantora.