"Homegrown"

Ano: 2021
Selo: Keep Cool / RCA
Gênero: R&B, Pop, Neo-Soul
Para quem gosta de: Chloe x Halle, Tinashe e Syd
Ouça: Dysfunctional, Slow Down e Come Over
Nota: 7.6

Crítica | VanJess: “Homegrown”

Ivana e Jessica Nwokike nunca esconderam o fascínio pela obra de TLC, Janet Jackson, Destiny’s Child e outros nomes importantes da música negra que brilharam na segunda metade dos anos 1990. E isso se reflete com naturalidade durante toda a execução do primeiro álbum de estúdio da dupla nigeriana, Silk Canvas (2018). São canções que vão do pop ao R&B em uma linguagem deliciosamente nostálgica, estimulo para a montagem de faixas como Addicted, ‘Til Morning e todo um fino repertório em que as irmãs que cresceram na região de La Palma, Califórnia, transformam os próprios relacionamentos e conflitos sentimentais no estímulo para cada nova composição.

É partindo justamente dessa mesma base conceitual que as duas artistas apresentam ao público o segundo e mais recente lançamento como VanJess, Homegrown (2021, Keep Cool / RCA). São nove faixas em que a dupla preserva a essência do material entregue no disco anterior, porém, se permite dialogar com outros nomes da novíssima cena estadunidense. Difícil não lembrar de Chloe x Halle, Tinashe e demais artistas que a todo momento reverenciam os clássicos, porém, estabelecem no uso destacado das batidas e força dos sintetizadores o estímulo para o próprio trabalho.

E isso pode ser percebido com bastante naturalidade na já conhecida Dysfunctional. Com produção assinada pelo canadense Kaytranada, parceiro de longa data da dupla nigeriana, a canção costura passado e presente da música negra de forma deliciosamente acessível. Enquanto os versos da canção refletem o lado provocativo das duas artistas – “Vamos tentar retroceder / Se você não lê meus sinais / Eu tenho certeza de que você verá” –, batidas deliciosamente dançantes convidam o ouvinte a dançar, proposta que acaba se refletindo em outros momentos ao longo do álbum.

É o caso da introdutória Come Over. Do tratamento dado aos sintetizadores, lembrando as criações do Disclosure, passando pelo uso calculado das vozes e batidas que ganham forma em uma medida própria de tempo, perceba como a dupla parece brincar com as possibilidades dentro de estúdio. A própria Caught Up, minutos à frente, utiliza do mesmo direcionamento. São pouco mais de três minutos em que as irmãs Nwokike vão da música disco de Chic e Michael Jackson ao pop eletrônico dos anos 2000, sempre utilizando dos próprios sentimentos como importante elemento de diálogo com o ouvinte.

De fato, são esses momentos de maior entrega que tornam a experiência de ouvir o trabalho bastante satisfatória. Exemplo disso pode ser percebido logo nos primeiros minutos do álbum, em Slow Down. “Eu gosto quando você é real comigo / Mal tenho uma pergunta / Focado no plano /Eu amo o que temos amor“, cresce a letra da canção enquanto o saxofone provocante ganha forma em meio a batidas tortas. É como se a dupla resgatasse tudo aquilo que foi apresentado durante o lançamento de Silk Canvas, porém, de forma ainda mais sensível e detalhista, como a passagem para um novo território criativo.

Dividido entre criações inéditas e faixas previamente apresentadas pela dupla, Homegrown nasce como um precioso exercício de transformação e busca por novas possibilidades para o VanJess. Diferente de Silk Canvas, onde cada composição parecia contribuir para o tratamento homogêneo dado ao disco, com o presente álbum, as irmãs Nwokike passam a investir em uma identidade cada vez mais plural, conceito que se reflete até mesmo nas diferentes abordagens estéticas utilizadas para a divulgação dos singles. Instantes em que as duas artistas preservam a própria essência, porém, deixam o caminho aberto para os futuros lançamentos.

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Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.