"Levaguiã Terê"

Ano: 2016
Selo: Independente
Gênero: Experimental, Instrumental, MPB
Para quem gosta de: Constantina e ruído/mm
Ouça: Toque №3: Turvalema e Canto №3: Vuto Flâmego
Nota: 9.0

Crítica | Vitor Araújo: “Levaguiã Terê”

Na ausência dos versos, um mundo de histórias narradas pela força dos arranjos. Em Levaguiã Terê (2016), segundo álbum de estúdio do pianista pernambucano Vitor Araújo, delicadas paisagens instrumentais convidam o ouvinte a se perder em um território onde delírio e realidade se confundem a todo instante. Dividido de em duas partes, o trabalho concentra no primeiro bloco de canções uma clara continuação do material entregue no antecessor A/B (2012). São ambientações sensíveis e instantes de breve silenciamento que antecedem a chegada de orquestrações volumosas, fortes. Composições de essência mística, sempre detalhistas, como uma interpretação conceitual do pássaro mitológico que serve de inspiração ao registro.

Entretanto, é na segunda metade do trabalho que o pianista de fato mostra a que veio. Marcado pela força da percussão, ruídos eletrônicos e vozes tratadas como instrumentos, o registro deixa de lado a ambientação serena do primeiro bloco para mergulhar em um território marcado pelo caos. Declaradamente inspirado pela obra de estrangeiros como The Knife e Radiohead, Araújo e seu principal parceiro em estúdio, o produtor Bruno Giorgi, mudam de direção a todo instante, tornando a experiência do ouvinte deliciosamente incerta. Canções que vão da euforia ao doce recolhimento em um intervalo de poucos segundos, proposta que faz de Levaguiã Terê uma obra diferente a cada nova audição.



Este texto faz parte da nossa lista com Os 100 Melhores Discos Brasileiros dos Anos 2010 que será publicada ao longo das próximas semanas. São revisões mais curtas ou críticas reescritas de alguns dos trabalhos apresentados ao público na última década. Leia a publicação original.