"Vulgar"

Ano: 2019
Selo: Risco
Gênero: Indie, Alternativa, MPB
Para quem gosta de: Tim Bernardes e Julio Secchin
Ouça: Vulgar e Uma Vez Mais
Nota: 7.6

Crítica | “Vulgar”, Caio Falcão

Instantes de forte melancolia e versos marcados pelo doce romantismo. Em Vulgar (2019, RISCO), o cantor e compositor paulistano Caio Falcão não apenas se entrega à dualidade dos elementos, como faz de cada composição do disco um precioso registro de profunda entrega sentimental. São fragmentos de vozes, melodias e pequenas curvas rítmicas que mudam de direção a todo instante, como uma extensão madura de tudo aquilo que o músico havia experimentado durante o lançamento do primeiro álbum de estúdio da carreira, Tudo Verde (2017).

Inaugurado em meio a versos românticos que se entregam à simplicidade das relações — “Você que é vulgar sem ser / E vulgar sem ser vulgar / É o verdadeiro sexy / Verdadeiro sexo / Verdadeiro amor” —, Vulgar, assim o trabalho que o antecede, se despe de qualquer traço de complexidade para rapidamente dialogar com o ouvinte. São canções ancoradas em temas do cotidiano, como um olhar curioso sobre as coisas simples da vida, seus personagens e acontecimentos.

Exemplo disso ecoa com naturalidade na terceira faixa do disco, Vagão. “Veja / Eu vivo os dias inúteis / Ouço o tempo correr / Deixo o dia passar / Vejo a noite surgir / Madrugada raiou“, canta enquanto arranjos tímidos da guitarra ganham forma aos poucos, transportando o ouvinte para dentro desse cenário movido pela completa ausência de pressa. A mesma composição atmosférica se reflete na curtinha Curió. São versos precisos, sempre descritivos, como se Falcão atuasse em uma medida própria de tempo, cercando e confortando o público.

Claro que essa propositada busca por um som contido não interfere na produção de músicas conceitualmente intensas, fortes. É o caso de Uma Vez Mais. Quarta composição do disco, a faixa não apenas reforça o uso dos instrumentos, indo do samba ao rock em uma linguagem própria de Falcão, como ainda se abre para a forte interferência de Laura Diaz, vocalista e uma das principais articuladoras do Teto Preto. Da formação dos arranjos ao uso da voz, perceba como cada movimento amplia os limites da canção, maior e mais complexa a cada nova audição.

Em Adeus Rock’n Roll, quinta faixa do disco, a mesma força e entrega sentimental de Falcão. São pouco mais de quatro minutos em que o músico paulistano parece brincar com a experiência do ouvinte, partindo de uma base essencialmente contida, diminuta, para mergulhar em uma canção marcada pela força dos arranjos e vozes. A mesma estrutura crescente acaba se refletindo logo na abertura do disco, em Fenestra. A diferença está na forma como o músico administra os arranjos, revelando delicadas paisagens instrumentais.

Misto de sequência e lenta desconstrução do material apresentado em Tudo Verde, o novo álbum reflete o amadurecimento e permanente senso de descoberta imposto por Falcão. Completo pela presença do produtor Gui Jesus Toledo, além de contar com a colaboração de diferentes nomes da cena paulistana, como Tim Bernardes (O Terno), na faixa-título do disco, Vulgar passeia por diferentes campos da música sem necessariamente parecer uma obra confusa. Variações instrumentais que vão do rock ao samba, fazendo dos sentimentos lançados pelo cantor um precioso elemento de conexão.