"A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa"

Ano: 2020
Selo: Lab 344
Gênero: Indie, MPB, Pop Rock
Para quem gosta de: Lucas Santtana e Teago Oliveira
Ouça: Nanã, Depois do Fim e Cacos
Nota: 7.0

Crítica | Wado: “A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa”

Existe uma beleza única no som produzido por Wado e ela funciona de diferentes formas. Da colisão de ritmos que embala os versáteis Terceiro Mundo Festivo (2008) e Samba 808 (2011), passando pelo reducionismo de Vazio Tropical (2013) ou rock de 1977 (2015), cada novo registro entregue pelo catarinense radicado alagoano parece transportar o ouvinte para dentro de um território particular. Canções que preservam o lirismo agridoce que há tempos define as criações do artista, porém, partindo de um remodelado direcionamento estético, estrutura que se reflete com naturalidade no econômico A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa (2020, Lab 344).

Sequência ao material entregue em Precariado (2018), o registro que conta com produção assinada pelo próprio cantor nasce como um ponto de ruptura dentro da extensa discografia de Wado. Livre da percussão que tradicionalmente embala as criações do artista, o músico investe na formação de uma obra regida pelas vozes e uso calculado dos arranjos. São orquestrações sublimes e fragmentos instrumentais que se revelam ao público em uma medida própria de tempo, sem pressa, proposta que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Sereno Canto.

Como complemento à base reducionista do álbum, Wado estreita a relação com um time seleto de instrumentistas e vozes vindas dos mais variados campos da música. Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do disco, em Faz Comigo. Marcada pela presença de Flora, cantora alagoana com quem trabalhou na produção do recente A Emocionante Fraqueza Dos Fortes (2020), a faixa de essência atmosférica ganha forma em meio a vozes enevoadas, pianos e arranjos de cordas assinados por Jair Donato, parceiro do músico durante toda a execução da obra.

A mesma leveza acaba se refletindo mais à frente, em Nanã, encontro com Otto e música que faz lembrar das composições de Mateus Aleluia, porém, preservando a atmosfera de Vazio Tropical. Em Angola, colaboração com Zé Manoel, Thiago Silva e Alfredo Bello, pinceladas instrumentais e vozes alternam entre a dor e o acolhimento. “Todo dia o globo da morte / Todo dia a benção da sorte“, reforça a letra da canção. Na minúcia de Arcos, parceria com Felipe De Vas e Yo Soy Toño, vocais serenos cobrem toda a superfície da faixa, conceito que acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra, como em Cuida e Tempo Sereno, ambas marcadas pelo canto doce de LoreB.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, Wado se entrega ao uso de pequenas experimentações. É o caso de Cacos, sexta faixa do disco. Acompanhado de Llari e Thiago Silva, esse último, produtor da canção, o músico investe na entrega de um material adornado pelo uso de ambientações etéreas, ruídos e melodias sintéticas, como uma fina desconstrução da base orgânica que define o restante da obra. É como um respiro leve que antecede os momentos de maior melancolia do registro, vide o encontro com Zeca Baleiro e Patricia Amaral, em Depois do Fim.

Dividido entre o conforto e a sutil ruptura criativa, A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa mostra um artista em pleno domínio da própria obra. É como se Wado soubesse exatamente que direção seguir dentro de estúdio, garantindo ao público um registro que encanta logo em uma primeira audição, mas que parece livre de grandes surpresas à medida em que é revisitado. Instantes em que o compositor alagoano utiliza de um novo e sempre delicado envelopamento para incorporar uma série de elementos, temas e sonoridades que fizeram dele um dos nomes mais importantes da nossa música.