"Your Hero Is Not Dead"

Ano: 2020
Selo: Partisan
Gênero: Indie, Art Pop, Art Rock
Para quem gosta de: Nilüfer Yanya e Perfume Genius
Ouça: Confirmation, The Line e Blue Comanche
Nota: 8.0

Crítica | Westerman: “Your Hero Is Not Dead”

O caminho escolhido por Will Westerman para o primeiro álbum de estúdio da carreira, Your Hero Is Not Dead (2020, Partisan), está longe de parecer o mais acessível. Longe de um resultado imediato, o cantor e compositor britânico que começou a carreira imitando o estilo de Kings of Leon e Neil Young, decidiu investir em uma obra de essência contemplativa, econômica. São fragmentos de vozes, arranjos tratados de forma minimalista e o propositado distanciamento de uma estrutura radiofônica. Mesmo o uso de refrãos e versos fáceis, como nos momentos mais convidativos do disco, se revelam de maneira pouco convencional. Mais do que garantir respostas, Westerman parece interessado em jogar com a interpretação do público, convidado a mergulhar em um cenário de pequenas incertezas.

Seu herói não está morto / Seu herói não está morto“, anuncia logo nos minutos iniciais do disco, na introdutória Drawbridge, canção que se abre para a inserção de melodias acústicas, pianos tratados de maneira complementar e ambientações sempre improváveis, como um indicativo da sonoridade incorporada pelo músico até a autointitulada faixa de encerramento do trabalho. Frações poéticas e instrumentais que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, conceito anteriormente testado durante o lançamento de Ark EP (2018), mas que ganha maior destaque à medida em que Westerman avança pelo interior do registro.

Feito para ser desvendado aos poucos, como tudo aquilo que o músico tem produzido desde o início da carreira, Your Hero Is Not Dead encontra na ambientação soturna dos anos 1980 a base para grande parte das canções. São canções fortemente inspiradas pela obra de veteranos como The Blue Nile, Arthur Russell e Prefab Sprout, mas que encontram no detalhismo e uso calculado de cada elemento o princípio de um novo direcionamento estético. Exemplo disso está em Float Over, próxima ao encerramento do disco. São pouco mais de dois minutos em que Westerman parte de um dedilhado acústico, insere batidas eletrônicos e usa da voz como um componente quase provocativo, lembrando as criações de Sade e outros nomes que surgiram no mesmo período.

Um misto de passado e presente, resgate e transformação, conceito que acaba se refletindo em algumas das principais músicas do disco. É o caso de Easy Money. Na contramão de outros nomes da cena inglesa, inclinados a revisitar o passado de forma nostálgica, Westerman brinca com a fragmentação das ideias. Do uso dos sintetizadores ao tratamento dado às batidas, perceba como o músico transita por entre gêneros e tendências de maneira sempre irregular, como uma interpretação torta do som produzido há mais de quatro décadas. A própria Blue Comanche, com suas vozes duplicadas e ambientações atmosféricas, lembrando uma canção esquecida do Chris Isaak, conduz a experiência do ouvinte de forma incerta.

Mesmo quando prova de uma sonoridade mais acessível, como em The Line e Waiting On Design, Westerman nunca tende ao óbvio. São canções concebidas em uma medida própria de tempo, sem pressa, estrutura que se reflete não apenas na forma como o artista administra camadas de guitarras, sintetizadores e batidas, como utiliza de pequenas variações na própria voz que se projetam de maneira quase instrumental. “Estou olhando muito de perto / Estou levando isso longe demais / Eu quero saber sobre onde está a linha“, canta enquanto discute relativismo moral a partir de diferentes aspectos da nossa sociedade. São versos em que parte de inquietações e conflitos pessoais, mas que em nenhum momento deixam de dialogar com o ouvinte.

Misterioso, como tudo aquilo que define a obra do músico inglês desde os primeiros registros autorais, Your Hero Is Not Dead é um disco que encanta justamente pela forma como Westerman joga com a experiência do público do primeiro ao último instante do trabalho. Composições que evocam uma permanente sensação de familiaridade, como um olhar curioso para o passado, mas que em nenhum momento ocultam a identidade criativa e poesia melancólica do artista, sempre guiado por questões existencialistas, amores fracassados e momentos de doce isolamento. Um exercício que exige tempo até se revelar por completo, porém, encanta o ouvinte durante todo esse processo.