"Thin Mind"

Ano: 2020
Selo: Sub Pop
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Sunset Rubdown e Clap Your Hands Say Yeah
Ouça: Against The Day e Forest Green
Nota: 7.0

Crítica | Wolf Parade: “Thin Mind”

De todo o catálogo de artistas que surgiram na primeira metade dos anos 2000, os canadenses do Wolf Parade seguem como um dos mais consistentes. Da estreia com o cultuado Apologies to the Queen Mary (2005), trabalho que acabou reverberando em uma dezena de outros registros da época, passando por At Mount Zoomer (2008) e Expo 86 (2010), sobram instantes em que o grupo, hoje formado por Spencer Krug, Dan Boeckner e Arlen Thompson, fez da descrença explícita nos versos um contraponto ao refinamento melódico dos arranjos, conceito que se reflete nos paralelos Sunset Rubdown, Handsome Furs, Swan Lake e tantos outros projetos que orbitam o grupo de Montreal.

Longe de qualquer traço de ruptura, é exatamente isso que o trio canadense entrega no quinto e mais recente álbum de estúdio da carreira, Thin Mind (2020, Sub Pop). Sequência ao material apresentado no antecessor Cry Cry Cry (2017), o registro parte de inquietações particulares e instantes de doce melancolia que se completam em meio a batidas destacadas e guitarras versáteis, direcionamento que se reflete na semi-dançante Under Glass, logo na abertura do disco, e segue até a faixa de encerramento do trabalho, Town Square.

Primeiro registro de inéditas do Wolf Parade desde a saída do guitarrista Dante DeCaro (Hot Hot Heat, Johnny and the Moon), Thin Mind preserva a urgência dos antigos trabalhos da banda, efeito direto da produção coesa de John Goodmanson (Sleater-Kinney, Los Campesinos!), porém, valoriza outros componentes historicamente relacionados ao grupo canadense, como os sintetizadores de Krug. São variações instrumentais que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, proposta que naturalmente rompe com qualquer traço de morosidade, mantendo a atenção do ouvinte sempre em alta.

Exemplo disso está no rock empoeirado de Against The Day. Primeira faixa do disco a ser apresentada ao público, a canção parte de uma base enevoada de sintetizadores para mergulhar em uma sequência de guitarras e batidas firmes, sempre íntimas de tudo aquilo que o grupo havia testado em Apologies to the Queen Mary. Um estímulo para o lirismo existencialista que embala os versos lançados por Boeckner. “Estávamos perdidos no mapa / Marcamos nosso caminho, mas não podemos voltar / E aqui na praia / A noite acredita que é interminável“, canta enquanto prepara o terreno para a canção seguinte do disco, a também intensa Town Square.

De fato, essa talvez seja uma das principais marcas do material apresentado em Thin Mind. Do momento em que tem início, na já citada, Under Glass, cada fragmento do disco encanta pelo aspecto crescente dos arranjos e vozes, como uma fuga do som entregue no disco anterior. São faixas como Forest Green, com seus sintetizadores e guitarras alinhadas, o ritmo marcado de Fall Into The Future ou mesmo criações densas e nostálgicas, caso de The Static Age e Wandering Son, músicas que parecem saídas de algum disco Bruce Springsteen no início da década de 1980.

Tamanho comprometimento garante ao público uma obra que mesmo ausente de grandes transformações, reflete a força criativa e profunda entrega de seus realizadores. Entre sintetizadores nostálgicos e guitarras carregadas de efeitos, o trio canadense revela ao público um delicado conjunto de faixas marcadas pela melancolia dos versos, relacionamentos instáveis e temas existencialistas, estrutura que naturalmente aponta para a boa fase da banda, vide a forte similaridade com as canções de Apologies to the Queen Mary e At Mount Zoomer, mas que em nenhum momento tende ao óbvio.