"Serotonin II"

Ano: 2019
Selo: Bayonet
Gênero: Eletrônica, Art Pop, Dream Pop
Para quem gosta de: Grimes e iamamiwhoami
Ouça: Pretty Bones e Pixel Affection
Nota: 7.5

Crítica | Yeule: “Serotonin II”

A riqueza de detalhes explícita logo na introdutória Your Shadow, faixa de abertura de Serotonin II (2019, Bayonet), funciona como um indicativo claro do som produzido pela cantora e compositora Nat Ćmiel no primeiro álbum de estúdio como Yeule. Produto do completo refinamento estético da artista de Singapura que hoje reside em Londres, o trabalho de essência minimalista se espalha em meio a melodias eletrônicas, batidas e instantes de profunda entrega sentimental, como se cada faixa apresentada no decorrer do registro fosse encarada como uma extensão natural das experiências vividas pela produtora.

Em atuação desde o início da década e responsável por uma série de obras marcadas pela completa leveza dos arranjos, vide o homônimo EP de 2014, Ćmiel transporta para dentro do presente álbum parte desse mesmo direcionamento contido. Exemplo disso está no pop atmosférico de Pocky Boy. Uma das primeiras faixas do disco a serem apresentadas ao público, a canção marcada pelo refinamento dos sintetizadores se revela aos poucos, sem pressa, indicando o esmero da artista na composição de cada elemento.

O mesmo cuidado no uso da voz e temas instrumentais acaba se refletindo na também conhecida Pretty Bones. São texturas eletrônicas, ruídos e vozes ocasionais que ora apontam para o experimentalismo sintético de nomes como Baths e Dntel, ora parecem dialogar com o pop atmosférico incorporado por Grimes, em Visions (2012). Ideias que se entrelaçam de forma sempre precisa, como se Ćmiel soubesse exatamente que direção seguir dentro de estúdio, cuidado que se reflete até a faixa de encerramento do disco, Veil of Darkness.

O mais interessante talvez seja perceber esse cuidado da artista mesmo nas menores composições do disco. São faixas como a atmosférica See You Space Cowboy, canção que ganha forma em meio a sintetizadores e texturas sobrepostas, sempre detalhistas, como uma introdução para o material que chega na faixa seguinte do disco, Pixel Affection. A própria Nuclear War Post IV, vinheta que serve de passagem para Pocky Boy, chama a atenção pelo uso minimalista dos elementos, cercando o ouvinte aos poucos.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, Yeule não apenas entrega ao público uma seleção de marcadas pela força dos elementos, como se permite provar de novas possibilidades. É o caso de Pixel Affection. Claramente inspirada pelo pop dos anos 1980, sonoridade que faz lembrar de nomes como Chromatics, a canção utiliza da voz atmosférica de Ćmiel como um importante alicerce temático, estímulo para a criativa sobreposição das batidas, ruídos e colagens eletrônicas que extrapolam os limites da obra.

Com base nessa estrutura, Yeule revela ao público um registro que preserva a essência dos primeiros trabalhos de estúdio, porém, sutilmente aponta para novas direções, como uma tentativa clara da cantora em se reinventar dentro de estúdio. “Quando eu criei o Yeule, o projeto passou a funcionar como uma embarcação para eu pudesse arquivar pontos importantes da minha vida. Cada música lançada em sua respectiva época reflete essa parte de mim“, resumiu no texto de apresentação do trabalho. Frações poéticas e instrumentais que mesmo íntimas de sua realizadora, parecem capazes de dialogar com qualquer ouvinte.



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