"Soul Lady"

Ano: 2020
Selo: Dreamus Company
Gênero: Pop, City Pop, K-Pop
Para quem gosta de: Carly Rae Jepsen e Jessie Ware
Ouça: I Feel Love, Yesterday e Cherries Jubiles
Nota: 8.0

Crítica | Yukika: “Soul Lady”

Em um universo de obras marcadas pelos excessos da produção eletrônica, ruídos sintéticos e vozes estilizadas, Soul Lady (2020, Dreamus Company), estreia de Yukika Teramoto em carreira solo, assume uma evidente posição de destaque. De origem japonesa, porém, radicada na Coreia do Sul e conhecida pelo trabalho como atriz em diversas produções locais, como novelas, animes e peças de teatro, a cantora e compositora estabelece no primeiro registro autoral a passagem para um território deliciosamente referencial. Instante em que o ouvinte é convidado a reviver o City Pop dos anos 1970 e 1980, estímulo para o material entregue em grande parte da obra.

Exemplo disso ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na romântica I Feel Love. Passada a introdutória From HND to GMP, canção que norteia toda a produção do disco, Yukika mergulha em um misto de soul, funk, jazz e synthpop que parece pensado para grudar na cabeça do ouvinte. São guitarras sempre suingadas, metais assinados pelo saxofonista Jo Hyung Woo e o trompetista Yoo Seung Cheol, além, claro, da linha de baixo suculenta de Kim Byeong Seok, como um complemento aos versos lançados pela artista. “O vento é tão doce que seu perfume veio antes de você / Sinta-se livre para voar de leve, sem segredo, e venha até mim“, clama.

Dentro desse território mágico, sempre confessional, Yukika detalha algumas das mais belas canções de amor que surgiram nos últimos meses. É o caso de Cherries Jubiles. Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a faixa estabelece na vulnerabilidade do eu lírico um elemento de diálogo com o ouvinte. “Eu não consigo esconder / Você ja conhece meu coração / Se você chegar um passo mais perto / Eu tenho medo de ser consumida por tudo isso“, confessa enquanto arranjos empoeirados correm ao fundo da canção. Instantes em que a artista evoca o trabalho de veteranas da cena japonesa, como Miki Matsubara e Taeko Ohnuki.

O mesmo olhar para o passado acaba se refletindo em A Day For a Love, um R&B agridoce que ganha forma em meio a arranjos econômicos e versos sempre intimistas. “Serei pega por você como uma tola? / Estou um pouco ansiosa / Na verdade, mais do que eu pensava / Eu gosto de você“, canta enquanto batidas lentas correm ao fundo da composição, conduzindo a experiência do ouvinte. Mesmo a curtinha All Flights Are Delayed, próxima ao encerramento do disco, incorpora o mesmo direcionamento estético, transitando em meio a ambientações contidas que parecem saídas de algum registro típico da produção japonesa dos anos 1980.

Entretanto, é no presente que a cantora situa grande parte da obra. Prova disso está em Yesterday, quarta faixa do disco. Entre sintetizadores nostálgicos que apontam para a década de 1970, vozes carregadas de efeitos e batidas eletrônicas transportam o ouvinte para o pop dos anos 2010. Difícil não lembrar de Carly Rae Jepsen, no ainda recente Dedicated (2019), efeito direto do cruzamento de referências que parece orbitar o mesmo universo temático. A própria Neon 1989, outra velha conhecida de Yukika, passa por novo tratamento em Soul Lady. Do uso das batidas aos temas eletrônicos, tudo soa como uma criativa reciclagem de ideias.

Ponto de equilíbrio entre o que há de mais significativo em diferentes aspectos da produção oriental nas últimas cinco décadas, Soul Lady nasce como um álbum maduro, porém, marcada pelo aspecto doce e completa leveza dos versos, elemento típico de um registro de estreia. São incontáveis camadas instrumentais, melodias extraídas de diferentes campos da música japonesa e coreana, e versos regidos pela força dos sentimentos, como se cada fragmento do disco detalhasse um aspecto diferente da cantora. Mais do que um exercício de estilo, uma obra que prepara o terreno e deixa o caminho livre para os futuros trabalhos de Yukika.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.