"Do Meu Coração Nu"

Ano: 2020
Selo: Joia Moderna
Gênero: MPB, Soul, Piano
Para quem gosta de: Ayrton Montarroyos, Luedji Luna e Igor de Carvalho
Ouça: História Antiga e Não Negue Ternura
Nota: 8.5

Crítica | Zé Manoel: “Do Meu Coração Nu”

Você já teve a sensação de ser acolhido por um disco? Mesmo imerso em doce melancolia e versos que escancaram o que há de mais doloroso nas histórias e vivências relacionadas ao cotidiano brasileiro, principalmente quando voltadas ao povo preto, sobrevive nas canções do atmosférico Do Meu Coração Nu (2020, Joia Moderna), novo álbum de Zé Manoel, uma beleza comovente, capaz de envolver e confortar o espectador. Composições que utilizam do reducionismo dos arranjos como estímulo para a formação das letras, sempre regidas por experiências reais, memórias e sentimentos conflitantes que deixam de pertencer ao músico pernambucano para se relacionar de forma sensível com todo e qualquer ouvinte.

Não por acaso, o autor de obras como Canção e Silêncio (2015) e Delirio de um Romance a Céu Aberto (2016) inaugura o álbum com História Antiga. Esperançosa, ainda que sóbria, a música aponta o caminho seguido pelo cantor, compositor e pianista de Petrolina até a derradeira Adupé Obaluaê. São versos que escancaram o peso do racismo a violência policial sofrida pela população negra, porém, vistos de um futuro distante e imaginativo, onde tamanha repressão há muito ficou para trás. “Houve um tempo em que a canção não impedia / Mais um jovem negro de morrer / Por conta da sua cor / Uma história tão antiga em 2019 / De uma civilização antiga de 2019“, canta enquanto pianos sofisticados correm ao fundo da canção, ressaltando cada fragmento de voz, mesmo o mais sutil.

É partindo justamente dessa estrutura contrastante, alternando entre letras fortes e melodias delicadas, que o músico embala a experiência do ouvinte. “Me abraça, grito, beijo / Na tua boca mora o meu desejo / Nega, não nego ternura / Não me negue“, clama em Não Negue Ternura, composição que se completa pela presença da cantora e compositora baiana Luedji Luna, artista que lançou há poucas semanas o também comovente Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água (2020). São frações instrumentais, poéticas e sentimentais que surgem e desaparecem durante toda a execução do trabalho, reforçando a sensação de uma obra viva, como um intrincado labirinto que exige ser desvendado pelo ouvinte em toda sua extensão.

Da fina tapeçaria instrumental que cobre a superfície de No Rio das Lembranças, passando pelo encontro com Gabriela Riley, na jazzística Wake My Divine, cada composição do disco exige uma audição atenta, revelando detalhes que talvez se mantenham ocultos para os ouvintes mais apressados. São camadas de pianos, a percussão discreta, vozes complementares e sopros que se espalham em uma medida própria de tempo. Instantes de profundo esmero, mas que em nenhum momento parecem atravessar a voz mansa de Manoel, indicativo do completo equilíbrio e forte relação entre o músico pernambucano e o produtor Luisão Pereira, presente durante toda a execução do álbum.

Entretanto, mesmo nesse lento desvendar de experiências sentimentais, o pianista e seus parceiros de estúdio garantem ao público momentos de maior urgência, como uma fuga breve do restante do trabalho. Exemplo disso acontece na caribenha Pra Iluminar o Rolê, canção de essência romântica que parece apontar para a produção latina dos anos 1960 e 1970. A própria faixa de encerramento do disco, Adupé Obaluaê, mesmo regida pelo piano de Manoel, parece romper com a base atmosférica do restante do álbum, mergulhando em uma corredeira de sons, batidas e formas instrumentais quase ritualística. Instantes em que o artista preserva e perverte a própria identidade criativa, ampliando os limites da própria obra.

Pontuado pela inserção de falas extraídas do documentário O Negro da Senzala ao Soul (1977), e trechos de áudio enviados pelo compositor baiano Letieres Leite, sempre marcados pelo forte discurso racial, Zé Manoel entrega ao público um registro que se estende para além dos limites de cada canção. São histórias de amor, momentos de forte contestação, sorrisos e dores que se espalham em uma trama de melodias detalhistas, capazes de ampliar tudo aquilo que o músico pernambucano havia testado em seus primeiros trabalhos de estúdio. Um delicado e necessário exercício criativo que costura passado, presente e futuro de forma tão esperançosa quanto realista e crua.