"Joy of Missing Out"

Ano: 2020
Selo: Apron Records
Gênero: Eletrônica, Jazz, Música Ambiente
Para quem gosta de: Teto Preto e Vermelho
Ouça: Hobart e Sozinho a Noite
Nota: 7.8

Crítica | Zopelar: “Joy of Missing Out”

Em meio ao turbilhão criativo que embala as canções de Pedra Preta (2018), primeiro álbum de estúdio do Teto Preto, músicas como Bica, Raio e a própria faixa-título do disco pareciam transportar o som produzido pelo coletivo paulistano para um novo território conceitual. Composições de essência nostálgica, por vezes entristecidas, como uma propositada fuga da euforia detalhada em faixas como Gasolina e Bate Mais. Satisfatório perceber nas canções de Joy of Missing Out (2020, Apron Records), segundo e mais recente trabalho em carreira solo de Pedro Zopelar, produtor e um dos principais articuladores do projeto, uma clara extensão desse mesmo direcionamento estético.

Sequência ao material entregue em Stepping Stone To The Future Of Space Exploration (2018), o novo disco encontra no diálogo com o passado um importante componente criativo para atrair a atenção do público. São temas instrumentais que parecem saídos de algum jogo antigo de Mega Drive, como Streets of Rage (1991), e ambientações jazzísticas que vão do City Pop japonês à obra de Marcos Valle, riqueza que se reflete tão logo o álbum tem início, em Sozinho à Noite, e segue até a faixa de encerramento do disco, a sensível Locked.

São temas sobre isolamento, instantes de doce melancolia e fórmulas instrumentais regidas pela economia dos elementos, como a trilha sonora para uma noite de solidão em qualquer centro urbano. Exemplo disso está no minimalismo de Driving To The Sun, canção que se espalha em meio a batidas espaçadas e sintetizadores sutis, como um diálogo de Zopelar com a obra de estrangeiros como Flying Lotus. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais, sempre ausentes de versos, porém, repletas de recordações, vide a nostalgia que se apodera de Hobart e o refúgio intimista da curtinha Praia.

Se por um lado essa leveza na composição dos elementos parece confortar o ouvinte, por outro, fica evidente a sensação de cansaço no decorrer da obra. São ambientações, fragmentos de vozes e melodias cíclicas, como se Zopelar desse voltas em torno de um limitado conjunto de ideias, problema que acompanha o trabalho do artista desde o material apresentado em Stepping Stone To The Future Of Space Exploration. De fato, não é difícil se perder durante a audição do trabalho, principalmente na segunda metade da obra, efeito direto da forte similaridade entre as canções.

Como forma de amenizar esse resultado, Zopelar se concentra na produção de faixas estratégicas que rompem com qualquer traço de morosidade. É o caso da colorida Brasilidade. São pouco mais de cinco minutos em que o produtor mineiro brinca com a criativa sobreposição de ritmos, batidas e sintetizadores de forma semi-dançante, como uma fuga do restante da obra. A própria Hobart, mesmo guiada pela leveza dos arranjos, encanta pela forma como o artista se permite avançar criativamente, detalhando incontáveis texturas e temas instrumentais pouco usuais, conceito que se repete mais à frente, na delirante Jazz da XV.

Verdadeiro exercício de estilo, Joy of Missing Out não apenas preserva, como amplia de forma detalhista tudo aquilo que o artista havia testado no antecessor Stepping Stone To The Future Of Space Exploration. São reverberações nostálgicas que tingem com novidade quatro ou mais décadas de referências criativas organizadas dentro de uma única obra. Pouco mais de 50 minutos em que o produtor mineiro vai dos temas jazzísticos de clássicos da nossa música, como São Paulo – Brasil (1977) de César Camargo Mariano, ao resgate estético de artistas estrangeiros, vide o extenso catálogo da 100% Silk Records. Sobreposições melódicas que transitam por diferentes sonoridades e estilos, porém, ainda íntimas da identidade de Zopelar.