"Zuu"

Ano: 2019
Selo: Loma Vista
Gênero: Hip-Hop, Rap, Trap
Para quem gosta de: Playboi Carti e Travi$ Scott
Ouça: Ricky e Speedboat
Nota: 8.0

Crítica | “Zuu”, Denzel Curry

Desde o início da carreira, Denzel Curry encontrou na cidade de Miami e em memórias da infância na cidade de Carol City, o principal componente criativo para o fortalecimento dos próprios versos. Basta uma rápida passagem pelas canções de Nostalgic 64 (2013), álbum de estreia do artista, ou mesmo toda a sequência de obras apresentadas nos últimos anos, como Imperial (2016) e o ainda recente Ta13oo (2018), para perceber a forma como o rapper norte-americano utiliza de referências e temas nostálgicos para dialogar com o presente, estrutura que ganha ainda mais destaque nas canções de Zuu (2019, Loma Vista).

Quarto e mais recente álbum de estúdio de Curry, o trabalho concebido em um intervalo de poucos meses é uma confessa homenagem aos principais articuladores culturais de Miami e um criativo resgate das memórias e experiências particulares do rapper. Da imagem de capa, assumidamente inspirada pela obra do coletivo Poison Clan, passando pela composição dos versos e fina base instrumental ancorada no rap da década de 1990, cada elemento do disco, serve de passagem para uma criativa colcha de retalhos conceituais.

Não por acaso, Curry decidiu fazer da empoeirada Ricky o primeiro single do disco. São memórias da infância e pequenas reflexões que apontam para ensinamentos repassados por diferentes membros da família, entre eles, o próprio pai, homenageado no título da canção. “Meu pai disse: ‘Não confie em ninguém além de seus irmãos / E nunca passe seus dias na sarjeta’ / Meu pai disse: ‘Trate meninas como sua mãe’ / Minha mãe disse: “Não confie em nenhuma puta, use camisinha’“, rima enquanto a base cíclica, produzida pela dupla FnZ, se espalha ao fundo da canção.

Mesmo a escolha dos convidados ao longo da obra parece contribuir esse conceito tão específico. Exemplo isso está na participação do veterano Rick Ross, também nascido em Carol City, na sombria Birdz. “Vamos começar de novo / Olho de Jeová / Venha dar uma olhada na minha cidade e sua cultura / Cidade cheia de abutres / Cidade cheia de gangsteres que estão aderindo ao código / Todo mundo pensando que eles me conhecem de verdade / Porque eles só me viram em um pôster de verdade“, cresce a letra da canção que discute tráfico de drogas, violência urbana e excessos cometidos pelos dois artistas.

Uma vez dentro desse cenário, Curry parte de pequenas inquietações particulares, como em Speedboat, para mergulhar em faixas puramente caóticas, capazes de dialogar com todo e qualquer público. São batidas, melodias e samples trabalhados em uma estrutura crescente, conceito que se reflete no som turbulento que ganha forma na segunda metade do trabalho. Músicas como Shake 88, colaboração com Sam Sneak, e P.A.T, encontro com PlayThatBoiZay, em que o rapper parece jogar com a incerteza das rimas e uso temas eletrônicos, mudando de direção a todo instante.

Entre citações a personagens icônicos da cultura pop, como Majin Boo, de Dragon Ball, e Valdemort, de Harry Potter, Curry entrega ao público uma obra conceitualmente ampla, feita para ser desvendada aos poucos. São fragmentos de vozes, retalhos poéticos e referenciais que mesmo inspirados pela relação do artista com a própria cidade de origem, a todo momento estabelecem pequenos elementos de conexão com o próprio ouvinte. Canções que se projetam em uma extensão menos sombria do material entregue durante o lançamento do também conceitual e ainda recente Ta13oo.