Disco: “119”, Trash Talk

Categories Resenhas

Trash Talk
Hardcore/Punk/Rock
http://www.trashtalkhc.com/

Por: Fernanda Blammer

 

Adorada pela imprensa, celebrada pelo público, a banda californiana Trash Talk não precisou de muito esforço para se transformar em um dos projetos mais aclamados da presente safra do hardcore/punk norte-americano. Distantes do lirismo que por vezes define os rumos de bandas como Fucked Up e seguindo por um caminho de natural caos e destruição, o grupo formado por Lee Spielman (vocais), Garrett Stevenson (guitarra), Spencer Pollard (baixo) e Sam Bosson (bateria) soube como poucos transformar as sempre insanas apresentações ao vivo em um caminho certo para os registros em estúdio. De posse de mais um novo trabalho, o quarteto tenta converter todas as façanhas conquistadas ao vivo em um álbum que permanece intenso, rápido e sufocante até os últimos momentos.

Sucessão de batidas desgovernadas, vozes ásperas e guitarras que preenchem todos os espaços do disco, em 119 (2012, Trash Talk Collective/Odd Future) a banda mantém os mesmos acertos incorporados nos projetos anteriores – seja o ótimo EP Awake (apresentado em 2011) ou desesperado Eyes & Nines, estreia definitiva do grupo lançada há dois anos. Todavia, longe de entregar uma sequência possivelmente óbvia de redundâncias e sonorizações batidas, a banda dá um passo além, apresentando um disco que mesmo linear e bem estruturado do ponto de vista dos anteriores álbuns, se volta aos primeiros e sempre joviais lançamentos do grupo.

Sempre rápido – são exatos 21 minutos e 58 segundos divididos em 14 faixas curtas e desesperadas -, o registro concentra nos vocais berrados de Spielman a linha de condução para um trabalho que se volta a todo o instante para idos de 2005, quando o primeiro disco demo e algumas composições avulsas do quarteto foram lançados ao público. De natureza anárquica, o álbum soa como se Damaged (1981) do Black Flag fosse triturado em um liquididficador junto de Master of Puppets (1986) do Metallica, tendo como um tempero extra tudo que há de mais esquizofrênico na recente obra do coletivo californiano Odd Future.

Por falar na sempre polêmica “banda” de Hip-Hop, além de fornecerem “abrigo” ao recente álbum – o trabalho foi lançado em parceria entre selos dos dois grupos – Tyler, The Creator e Hodgy Beats acabam colaborando com o quarteto em um dos momentos mais sombrios do disco. Climática e mais extensa música de todo o álbum, Blossom & Burn abre espaço para que a dupla de rappers acompanhem Spielman em um desfiladeiro de sonorizações densas que em alguns momentos beiram o que há de mais sombrio dentro do Heavy Metal. A canção parece abrir as portas para o que é entregue na segunda metade do álbum, com a valorização faixas instrumentalmente mais expansivas e menos enérgicas em relação às iniciais.

Provável resultado do que vamos encontrar nos próximos lançamentos da banda, a partir da sexta faixa encontramos um Trash Talk distinto, dono de composições menos óbvias e sonorizações que ultrapassam os limites do punk e do hardcore sem grandes dificuldades. Assim como já era possível identificar no decorrer do último EP, parte do que sustenta o trabalho vem do esforço individual de Garrett Stevenson, figura que desfila de maneira soberba durante a execução de cada nova música. De passagens rápidas pelo punk californiano em Reasons ao que existe de mais comum no metal na faixa de encerramento Dogman, o guitarrista toma fôlego e despeja uma carga de distorções que ao entrarem em contato com a bateria de Sam Bosson ampliam ainda mais os limites do caos já existente no decorrer do disco.

Mais distinto e bem explorado trabalho do grupo até agora, 119 aponta para um resultado de delineamentos “comerciais” – proposta óbvia em músicas como F.E.B.N. e Reasons -, ainda que as explosões sonoras que preenchem o disco incorporem outra funcionalidade. Despretensioso na maneira como se desenvolve, agressivo na forma como explora cada canção de maneira a espancar os ouvintes, com o novo álbum o Trash Talk firma uma estrutura particular na cena californiana, projetando uma carreira que mesmo apostando em velhos acertos hedonistas parece ganhar outro sentido nas mãos sujas de cerveja, maconha ou qualquer outra substância que passe pelas composições do quarteto.

119 (2012, Trash Talk Collective/Odd Future)

Nota: 7.6
Para quem gosta de: OFF!, Fucked Up e Ceremony
Ouça: F.E.B.N., Reasns e Blossom & Burn

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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