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Disco: “1977”, Wado

Wado
Alternative/Indie/Nacional
http://wado.com.br/

Fotos: Pedro Ivo Euzébio

Desde os iniciais Manifesto da Arte Periférica (2001) e Cinema Auditivo (2002) que as guitarras não recebiam tanto destaque dentro de um trabalho de Wado como em 1977 (2015, Independente). Registro que carrega no título o ano de nascimento do artista catarinense/alagoano, o oitavo álbum de inéditas de Wado está longe de parecer uma obra nostálgica. Pelo menos dentro do universo particular do cantor. Em um diálogo rápido com o (punk) rock e todo o cenário montado no mesmo período, o músico sustenta em cada faixa do disco sua obra mais dinâmica e “raivosa”.

Fuga da atmosfera eletrônica reforçada entre Terceiro Mundo Festivo (2008) e Samba 808 (2011), além de um completo desligamento do som acústico de Vazio Tropical (2013), então último álbum de Wado, o presente disco mostra um artista (mais uma vez) reformulado, capaz de brincar com a própria essência de forma curiosa. Como define o próprio texto de apresentação do trabalho: “o norte sem norte: o não se repetir”. Mas será que tudo em 1977 é tão novo assim?

Mesmo que a parte inicial da obra autorize a entrada de guitarras sujas e distorcidas, raras dentro da (extensa) discografia do músico, durante todo o desenvolvimento do trabalho, resgates e pequenas adaptações dos últimos discos de Wado são reforçados de forma evidente. Dos pianos melancólicas em Menino Velho ao toque doce de Palavra Escondida – talvez sobras do último disco -, tudo se dissolve em uma ambientação acolhedora, como uma nova curva dentro da quebra brusca que abre o disco.

Não é preciso muito esforço para interpretar o novo álbum de Wado como um obra de dois lados bem definidos. Na primeira metade: a crueza. São faixas como Deita, Lar e Cadafalso – esta última, faixa-título do último álbum de Momo. Instantes em que a “raiva”, esquiva no último disco do cantor, cresce com acerto e movimento para os versos. Na segunda parte: a leveza. Difícil não se emocionar com composições como Um Dia Lindo de Sol e Mundo Hostil, faixas que dosam descrença e esperança com uma naturalidade rara dentro do rico acervo do compositor.

Dentro desse ambiente fragmentado e de essência talvez bipolar, um time de convidados alheios ao quarteto inicialmente formado por Cícero, Momo e Marcelo Camelo em Vazio Tropical. Musicistas e vozes que transportam Wado para além do território nacional, dividindo experiências com artistas do Uruguai, Alemanha, Portugal e Argentina. Entre os convidados: Samuel Úria (Deita), Graciela Maria (Galo) e Gonzalo Deniz (Mundo Hostil). Mesmo encarado como uma obra de sonoridade concisa, quase hermética, não seria um erro interpretar 1977 como o registro mais plural do artista, repetindo a mesma variedade de interferências do (hoje) clássico Samba 808.

Movido pela urgência dos arranjos, curioso perceber 1977 como o registro menos “imediato” do cantor. Ainda que faixas como Lar e Cadafalso abracem o ouvinte sem dificuldades, é preciso tempo até absorver toda a soma de arranjos, cantos e interferências que assertivamente sustentam o trabalho. Versos cortados por línguas estrangeiras, guitarras que crescem e encolhem a todo o instante, além de letras que sussurram segredos de uma mente atormentada – seja ela do músico ou do próprio ouvinte. Um disco de muitos “Wados”.

1977 (2015, Independente)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Marcelo Camelo, Momo e Cícero
Ouça: Galo, Menino Velho e Um Dia de Sol


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