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Disco: “21”, Adele

Adele
British/Soul/Female Vocalists
http://www.adele.tv/

Por: Cleber Facchi

“Toda unanimidade é burra”, a amarga afirmação do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues quase sempre se revela como uma contra resposta aos excessivos elogios ou direcionamentos únicos em cima das mais variadas práticas. A constatação, entretanto torna-se inválida quando relacionada ao novo álbum da cantora britânica Adele, que antes mesmo de ter seu recente trabalho lançado, já ocupava as principais listas de apostas musicais do ano. Percorrendo o mesmo caminho iniciado em seu primeiro álbum e apresentando um visível amadurecimento em sua voz, a jovem inglesa faz do atual trabalho um mecanismo para compartilhar suas dores e comover os ouvintes.

Os três anos que separam o debut 19 (2008, XL, Allido, Columbia) do atual 21 (2011, XL, Columbia) não apenas trouxeram mais idade à britânica (hoje com 23 anos), que cercada de novos produtores e amizades faz com que seu mais recente trabalho apresente uma clara evolução, tanto instrumental e lírica, quanto no belo emprego de sua voz. Ainda bebendo vigorosamente da soul music (os ecos da Motown mais presentes do que nunca), em seu novo álbum Adele brinca com novos gêneros, evitando que sua obra se afunde em redundâncias e amarrando ainda mais seu já fiel público.

Em tempos de crise e buscas por novas estratégias dentro da indústria musical é na venda de forma convencional (além de alguns muitos downloads), que a cantora conseguiu se posicionar firmemente como a dona do disco mais vendido de 2011. As boas vendas e a quase unanimidade das críticas mais uma vez trariam reforço ao que fora apontado por Rodrigues, entretanto, quando nos deparamos com a beleza amargurada que circunda a voz e as melodias derramadas em 21 torna-se difícil não se entregar à conformidade e simplesmente se deixar conduzir pelas agradáveis canções que se instalam em nossos ouvidos.

Se em sua estreia Adele já se revelava de forma grandiosa, esbanjando sensibilidade através das 12 faixas que preenchiam seu álbum, com o novo projeto a cantora vai ainda além encontrando no uso de novas especiarias instrumentais o tempero que faltava para seu trabalho. Usando da soul music como base, a inglesa costura em suas faixas recortes das mais variadas tendências musicais, como o blues, a música country norte-americana, uma maior aproximação com o pop (as Spice Girls que tanto aponta como uma de suas inspirações acabam enfim se revelando) e um tipo de pluralidade que quebra a lógica quase hermética do primeiro disco e faz seu novo registro soar grande.

A cantora de múltiplas faces que vai aos poucos se construindo ao longo do álbum só parece possível pelo corpo de músicos e produtores que a circundam. Enquanto 19 se fechava em torno de três produtores e um pequeno apanhado de músicos, com o recente álbum (e um claro maior apoio da gravadora), Adele chega acompanhada de seis produtores, um número grandioso de músicos, compositores e indivíduos que constroem as bases para que sua voz possa confortavelmente se intensificar e se transformar no material que temos em mãos. O resultado se traduz não apenas nas boas vendas, mas em um trabalho tomado por composições de pura beleza e sinceridade, um tipo de mistura que eventualmente entra em extinção dentro do panorama musical.

Há espaço tanto para a construção de pequenos épicos, como a poderosa faixa de abertura Rolling in the Deep (com Adele brincando com o Bluegrass de Wanda Jackson), como para a simplicidade e a doçura de If It Hadn’t Been For Love, faixa que mesmo modesta se dissolve em um vasto apanhado de referências, indo do Blues à Bossa Nova em curtos minutos. Ao mesmo tempo que se mantém como um registro de proporções grandiosas há também um limite, como se a britânica soubesse exatamente até onde pode chegar em sua obra, e talvez por conta disso saiba como explorar tão cuidadosamente cada pequeno espaço de seu trabalho.

21 (2011)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Duffy, Ellie Goulding e Lykke Li
Ouça: Turning Tables

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4 thoughts on “Disco: “21”, Adele

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