Disco: “66”, O Terno

Categories Melhores Discos, Resenhas

O Terno
Brazilian/Rock/Indie
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Por: Cleber Facchi

Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar? Se até cantar sobre ‘me diz meu Deus o que é que eu vou cantar’ já foi cantado por alguém? Além do mais tudo que é novo hoje em dia falam mal”. Com estes irônicos e bem humorados versos a banda paulistana O Terno lança as bases para inaugurar um dos mais inventivos e nostálgicos discos que embalaram nossa música em 2012. Claramente voltado ao rock da década de 1960, ao mesmo tempo em que incorpora aspectos do novo rock que aflorou no início dos anos 2000, em 66 (2012, Independente) a tríade formada por Martim Bernardes (voz e guitarra), Guilherme “Peixe” (baixo) e Victor Chaves (bateria) faz do constante passeio entre épocas musicais a proposta para um disco marcado pela descoberta.

Continuação menos colorida do que fora testado há dois anos pelos paulistanos do Garotas Suecas em Escaldante Banda, o acelerado disco de 10 faixas pinta com ironia e precisão um mapa de influências que há décadas definem o rock em suas múltiplas formas. Ora voltado aos sons psicodélicos que embalaram os Beatles em meados dos anos 60, ora brincando com os apelos nonsenses que amarraram toda a obra dos Mutantes (antes dos avanços com a música progressiva), o álbum concentra nas guitarras o mecanismo base para que o trio se aventure por um mundo de formas pegajosas e elaboradas de forma melódica.

Nas experiências que definem grande parte do registro, marcas fundamentais relacionadas à obra de Caetano Veloso aos poucos se revelam em cada uma das faixas. Se O Morto parece cravar um diálogo sublime entre os experimentos complexos de Araçá Azul e a sobriedade cinza que percorre a fase pós-, 66 e Eu Não Preciso de Ninguém se relacionam de forma bem humorada com os primórdios da atuação do baiano. Tocando com leveza em aspectos fundamentais da carreira do músico, o trio encontra as bases para estabelecer um som próprio, que ainda incorpora de maneira particular aspectos diversos dos sons alicerçados na década de 1960 – tendências nostálgicas que partem tanto do rock nacional como estrangeiro.

Com um resultado que por vezes pode soar óbvio e até “bobinho” para alguns ouvidos descuidados, 66 traz nos versos a força de um projeto maduro e que em nada se assemelha a outros discos apoiados na mesma proposta instrumental. De melancolias joviais (Enterrei Vivo) a personagens (Zé, Assassino Compulsivo) e finos toques existenciais (Morto), a beleza do debut está na força da tríade em passear por distintos terrenos de forma autêntica. Martim Bernardes não apenas explode as cordas vocais de forma confiante ao longo do disco como se assume como um compositor de atitude pontual, fazendo com que suas letras prendam pela sutileza e pela complexidade na mesma medida.

Dividido em dois lados, o trabalho concentra na primeira metade o aspecto mais radiante das composições, faixas elaboradas unicamente pelo grupo. É nele que se concentram músicas consumidas por guitarras velozes, vozes plásticas e letras que se abrem aos distintos ouvintes, trazendo em composições como Eu Não Preciso de Ninguém e Enterrei Vivo os momentos que mais aproximam o grupo da música pop. Já na segunda metade do disco, a banda assuma uma série de pequenos experimentos, todos assinados pelo membro dos Mulheres Negras Maurício Pereira. É possível, assim, perceber algumas bem resolvidas passagens pelo sertanejo em Modão de Pinheiros (um misto de Charme Chulo com Mutantes) e até Ska na dançante Tudo Por Ti, música que muito lembra as passagens rápidas de Rodrigo Amarante no primeiro álbum do Los Hermanos.

Musicalmente posicionado nos anos 60, porém, dono de uma poesia inteiramente voltada ao presente estado da música, o trabalho de estreia da banda O Terno vai além do que tantos apaixonados pelos anos de glória (e contestação) da música brasileira conseguiram encontrar. Irônico, mas ainda assim sincero com sua proposta, o álbum deixa fluir a atuação de três figuras que se divertem como crianças com todas as tendências estipuladas há mais de quatro décadas, firmando dentro dessa predisposição bem humorada a melhor e mais coerente relação com o que fora criado naquela época. Não, a década de 1960 e os sons estabelecidos ao longo dela não estão de volta, eles se transformaram.

66 (2012, Independente)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Garotas Suecas, Caetano Veloso e Nevilton
Ouça: O Morto, 66 e Eu Não Preciso de Ninguém

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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