"A Mulher do Fim do Mundo"

Elza Soares

Ano: 2015
Selo: Circus / Natura Musical
Gênero: Samba, Rock
Para quem gosta de: Juçara Marçal e Metá Metá
Ouça: A Mulher do Fim do Mundo
Nota: 9.5

Disco: “A Mulher do Fim do Mundo”, Elza Soares

Incansável. Aos 78 anos, dona de 34 álbuns de estúdio, Elza Soares faz valer o verso central da faixa que garante título ao primeiro registro de inéditas em mais de 60 anos de carreira. “Me deixem cantar até o fim”, despeja a artista na música composta por Romulo Fróes e Alice Coutinho. Em A Mulher do Fim do Mundo (2015, Circus/Natura Musical), o samba sujo de São Paulo se encontra com a essência carioca, sempre quente, da veterana, resultando em um passeio que atravessa diferentes décadas, cenários e personagens de maneira explosiva, caótica.

Cercada por Kiko Dinucci, Thiago França, Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Celso Sim, Guilherme Kastrup e boa parte dos integrantes do Bixiga 70, Elza reaparece transformada, íntima da presente safra de artistas paulistanos. Em um lento desenrolar dos versos que tem início em Coração do Mar, poema de Oswald de Andrade musicado pelo velho parceiro José Miguel Wisnik, cresce o cenário marcado pela destruição, conflitos, choro, sexo e libertação.  

Em um atento exercício de renovação – talvez maior do que Caetano Veloso em (2006) ou Gal Costa no eletrônico Recanto (2011) -, Soares flerta com a linguagem das ruas em Firmeza – “Pena que corre é mil grau… É a life meu, irmão” -, e ainda detalha o sexo de maneira quase explícita, agressiva, em Pra Fuder – “Unhas cravadas induzem latejo / Roupas jogadas no chão / Pernas abertas te prendo num beijo”. Do vocal torto ao uso de temas instrumentais que se quebram durante toda a obra, cada elementos se encaixa com naturalidade, garantindo passagem até o lamento triste que marca a derradeira Comigo – “Levo minha mãe comigo / De um modo que não sei dizer”.

Versátil, o catálogo de temas incorporados por Elza parece longe de uma montagem linear. Enquanto a violência doméstica serve de estímulo para os versos da enérgica Maria de Vila Matilde – “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, Luz Vermelha, música que chega logo em sequência, vai do rap ao rock em uma composição essencialmente cinza, delimitando um cenário pessimista que parece sintetizar todo o restante da obra – “Bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda”.

Essa mesma “irregularidade” parece servir de estímulo para todo o mosaico instrumental do disco. Rock encontra o samba em Luz Vermelha e Maria de Vila Matilde, tango na confessional Dança e até diálogos com a música africana na estranha O Canal – faixa que mais se distancia do restante da obra e soa como uma possível sobra do último álbum de Rodrigo Campos, Conversas com Toshiro (2015). Nada que se compare ao jogo insano de arranjos e vozes que cresce no interior da complexa Benedita. Enquanto os versos detalham o universo de excessos da protagonista transexual – “Ela leva o cartucho na teta / Ela abre a navalha na boca / Ela tem uma dupla caceta”, guitarras e metais travam uma verdadeira batalha no interior da faixa, instável durante toda a construção.

Em entrevista ao jornal O Globo, Elza disse: “Sou espírita, dentro do espiritismo existe uma entidade que se chama Iansã. Ela é o fogo, a lava. Eu me vejo como essa entidade maravilhosa se incendiando, mas viva, viva eternamente”. Nascido clássico, A Mulher do Fim do Mundo soa como um reflexo dessa chama criativa que envolve não apenas o esforço da própria artista, mas todo o time de músicos, letristas e produtores que atuam durante a execução da obra. Ainda que a voz da cantora pareça falhar em determinados momentos, vide a faixa-título, sobra combustível e estímulo para que a energia de Elza volte a crescer, inflamada, mantendo aceso o fogo do trabalho até o último segundo.

 

 


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