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Disco: “A Música da Alma”, Amplexos

Amplexos
Brazilian/Afrobeat/Dub
http://amplexosbanda.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

A fluminense Amplexos é uma banda que parece viver entre saltos. De maneira geral criativos saltos líricos, sentimentais e até mesmo filosóficos, afinal, o que é a transformação ressaltada no irregular álbum de estreia de 2008 para o singelo (em formato) e amplo (em conceitos) Manifesta EP, disco apresentado no ano passado? Considerando o registro entregue há mais de quatro anos como uma coletânea de tudo que a banda havia produzido previamente, agarrando principalmente referências testadas em princípios da carreira, com a chegada de A Música da Alma (2012, Independente) temos de fato o lançamento do primeiro registro oficial do sexteto de Volta Redonda, Rio de Janeiro. Grupo que ao olhar para a música negra e as periferias ao redor do globo realiza um salto ainda maior do que o que havia dado em um passado recente.

Nascido de uma nuvem instrumental suave, sempre perfumada pelo reggae, dub, afrobeat e alguns toques do que há de mais doce e acolhedor no cenário musical, o grupo prossegue exatamente de onde parou com o último registro, expandindo ainda mais os acertos previamente revelados. De fato, as três composições que circulavam no interior do pequeno ManifestaMaking Love, Leão e Festa – estão de volta, se revelando como peças necessárias para formalizar o rico quebra-cabeças lisérgico e mágico que o grupo lentamente constrói no decorrer da obra. Entretanto, longe de romper com os ineditismos da obra, a presença das três já conhecidas criações ganham um novo contexto, como se tudo que a banda mostrou previamente fosse apenas um aperitivo perto do prato principal que é entregue agora.

Antes de qualquer consideração instrumental – que em alguma medida perverte os laços com o que há de mais típico em trabalhos do gênero -, A Música da Alma se revela como um alívio. Tão logo a inaugural Falsa Salsa abre as portas do trabalho, somos mergulhados em um universo que em nada se assemelha aos redundantes enquadramentos capazes de reger a ordem do desgastado reggae tupiniquim. Esqueça as faixas que clamam tolas ao amor livre, versos “canábicos” pensados de maneira a constranger e toda a (falsa) sensação de liberdade que qualquer grupo de formatos radiofônico insere música após música. Centrado em recortes políticos, existenciais e românticos do cotidiano, a banda vai além do tradicional, movimentando um trabalho que instiga sem que seja necessário estampar o rosto de Che Guevara na capa ou nos versos do disco.

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Temperado pela celebração (Festa), análises socio-políticas (O Homem) e um delicioso toque de romance (Making Love), com o novo disco a Amplexos passeia por todos os incontáveis exageros quase cênicos que definem o estilo desde primórdios de Bob Marley: Curiosamente sem parecer clichê. Parte nítida desse resultado está na maneira como as letras e vozes de se esparramam pelo trabalho. É como se as faixas encontrassem na instrumentação ampla (que por vezes tende ao rock) a incapacidade de amarrar versos desgastados, rimas pobres ou todo um arsenal de referências pop que de maneira geral orientam os percursos de nove em cada dez trabalhos que passeiam pelo íntimos dessa mesma sonoridade. Soma-se a isso a presença (mais uma vez) competente de Buguinha Dub, eterno colaborador da Nação Zumbi que trata de todas as faixas do disco como iguais, resultando em um projeto bem costurado da primeira à última música.

Diferente do que dava sustento ao último EP do sexteto, com o recente álbum é clara a intenção da banda em expandir os rumos do trabalho, não apenas em ritmos – visto que a força do afrobeat cresce significativamente -, mas em volume. O que antes eram composições mais leves, comerciais e até simples, agora se converte em criações mais densas, com músicas como O Homem e Mistério ultrapassando fácil os oito minutos de duração. A estratégia serve para aproximar o grupo da psicodelia recheada pelo suingue de grupos como Funkadelic, além de permitir que a instrumentação dance rica e magistral no decorrer das faixas, ampliando as formas testadas pelo grupo inicialmente.

Trabalhado sem grandes exageros – proposta que acompanha o grupo fluminense desde o primeiro álbum -, A Música da Alma é um trabalho que cresce (de forma não intencionalmente) por justamente se apegar a uma medida própria de ritmo, versos e preferências instrumentais. Sem permitir que exageros e erros óbvios acabem por desgastar o álbum, o grupo passa o registro todo em busca de um resultado que se mantenha competente até a última música, revelando não um, mas uma infinidade de saltos e crescimentos constantes que apenas engrandecem o disco e a própria trajetória da banda.

A Música da Alma (2012, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Maquinado, Curumin e Céu
Ouça: Making Love, Boladão e Mistério

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