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Disco: “A Praia”, Cícero

Cícero
Indie/Nacional/Alternative
http://www.cicero.net.br/

 

Romântico, brega, chato ou, como defende o público fiel, “um gênio incompreendido”, “um poeta”. Cícero pode ser acusado e classificado das mais variadas formas, porém, goste ou não do trabalho assinado pelo músico carioca, em nenhum momento ele pode ser encarado como previsível. Exemplo significativo desse resultado está na estrutura e (ainda falho) conceito executado em Sábado (2013), segundo álbum solo do cantor. Talvez mal interpretado, um “Araçá Azul particular“, a obra entregue há dois anos está longe de parecer o ponto central da (curta) obra do jovem compositor. Ainda atento, Cícero mantém firme a busca pela própria identidade, postura explícita no horizonte infinito que estampa a capa e sonoridade aplicada em A Praia (2015, Independente).

Uma rápida audição, e a reposta parece surgir de forma imediata: com o terceiro e mais recente trabalho de inéditas, Cícero talvez tenha encontrado um meio termo exato entre o “samba-indie-melódico” do registro de estreia, Canções de Apartamento (2011), com o “experimento caseiro” testado no interior do segundo álbum, Sábado. Um erro. Ainda que a maquiagem eletrônica de Frevo por acaso N˚2 e diferentes faixas espalhadas pelo registro sustentem a parcial novidade por parte do músico, está na composição quase sorridente dos versos o aparecimento de um novo “personagem” e poeta.

Se há poucos anos, Cícero cantava amargurado “Hoje não vai dar / Não vou estar / Te indico alguém“, em Açúcar ou Adoçante, ou tentava se manter esperançoso nos versos de Frevo Por Acaso – “E se um dia precisar de alguém pra desabar / Eu tô por aí” -, hoje ele sorri. A julgar pelos versos encaixados em O Bobo, não seria um erro afirmar que Cícero encontrou (mais uma vez) o amor. “Eu vou lá / Pra ver o meu amor chegar e toda alegria descer da varanda / Eu vou lá / Pra ver a minha dor passar longe de quando a menina balança“, confessa o apaixonado eu lírico da canção, sustentando mais do que uma curva dentro da sorumbática discografia, mas um novo caminho, talvez ensolarado.

Com a mudança expressiva nos versos, a sonoridade eletrônica que preenche o disco – marcada pela utilização de sintetizadores e batidas precisas -, soa apenas como a cereja no topo do bolo. Observada a inconsistência e amadorismo carimbado na produção de Sábado, não é difícil interpretar o presente disco como o produto final do “esboço” apresentado há dois anos. De fato, muitos dos conceitos (musicais) expostos no trabalho anterior parecem completos agora – ouça De Passagem e perceba a similaridade com antigos inventos do cantor. Mesmo os arranjos de cordas e pianos, típicos do ambiente acústico do primeiro álbum, encontram um novo detalhamento no castelo de areia sonoro que Cícero levanta até o último ato do trabalho.

Oposto de Sábado, um disco pretensioso, montado para parecer complexo, A Praia flutua com beleza e naturalidade em ondas leves de experimentação. Perceba como as melodias simples de O Bobo logo desembocam em uma estrutura atormentada, suja e deliciosamente caótica. Uma divisão exata entre a herança acumulada pelo músico com a extinta banda Alice e influências confessas, principalmente Radiohead; difícil não relacionar os metais que fecham a intensa composição com o mesmo som “jazzístico” de Life In a Glass House, uma das canções mais sedutoras da banda de Thom Yorke. Arranjos de cordas, sopros, guitarras, entalhes eletrônicos e produção, Cícero está presente em cada instante da obra.

Livre de pausas, sem tempo para bocejos, da abertura com Frevo por acaso N˚2, passando pela faixa-título, Isabel (carta de um pai aflito), até alcançar Terminal Alvorada, o músico mantém a coerência e atenção do ouvinte. Pausas existem, vide a doce Cecília & a Máquina, mas nunca cansaço. Em A Praia, Cícero é apresentado como um artista grande, o mesmo que conseguiu chamar a atenção do público com o som crescente de Tempo de Pipa e Ponto Cego, aquele que ocupou (sim) a lacuna deixada pelos conterrâneos do Los Hermanos. Nada de “versos intimistas”, ou mínima forma de reclusão. Apenas um artista seguro, acessível, pronto “para as massas” – e não há problema algum nessa postura. Na praia de Cícero o sol brilha forte, chove, há tormenta e tumulto, amor e celebração, tudo, menos calmaria.

 

A Praia (2014, Independente)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Silva, Mahmundi e Marcelo Camelo
Ouça: O Bobo, A Praia e Frevo por acaso N˚2

Para R.G.

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18 thoughts on “Disco: “A Praia”, Cícero

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