Disco: “A Propósito”, Babasónicos

Categories Resenhas

Babasónicos
Argentina/Indie Pop/Alternative
http://babasonicos.com/

 

Por: Cleber Facchi

É realmente estranho o quanto a música elaborada em nossos países hermanos, mesmo fisicamente próximos parecem tão distantes de nós, afinal, quando foi a última vez que você ouviu algum disco de um artista argentino ou de alguma cantora boliviana? São raros nomes como Fito Páez ou Jorge Drexler que conseguem escapar de seus limites territoriais e fazer algum relativo sucesso no Brasil. Recente exemplo de grupo que acaba de lançar seu novo disco e que muito provavelmente cairá em ostracismo ao pisar em solo tupiniquim são os veteranos do Babasónicos, banda com mais de 20 anos de carreira e raras aproximações com nosso país.

Assim como na geração brasileira de músicos dos anos 90 a lógica estabelecida foi a de agregar o máximo possível de distintos elementos musicais, com o hoje quinteto argentino isso não foi diferente. Rock psicodélico, pós-punk, música eletrônica e um tempero de rock alternativo (naquele momento vivendo seu ápice) foram alguns dos elementos que movimentaram o grupo de Buenos Aires em seus primeiros ou mesmo nos mais recentes trabalhos. Em A Propósito (2011, Universal Music) décimo álbum da banda, a mesma musicalidade que delimita toda a carreira do grupo se faz presente, agora levemente mais suave e perceptivelmente mais melancólico.

Mesmo dentro da boa e ampliada discografia da banda – Pasto (1992), Trance Zomba (1994), Dopádromo (1996), Babasónica (1997), Miami (1999), Jessico (2001), Infame (2003), Anoche (2005) e Mucho (2008) –  a ideia apresentada no recente trabalho se revela de maneira distinta ao som que o quinteto vinha desenvolvendo até então, um quase oposto do apanhado de composições radiofônicas e pegajosas que se evidenciavam através das velhas faixas do grupo como Delétrico, Putita ou Carismático.

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O principal aspecto que parece delimitar a atual obra do grupo se encontra na condução de faixas menos enérgicas e mais climáticas. A instrumentação, antes orientada de forma sempre vertical e inundada por sons enérgicos, agora se orienta através de um aspecto muito mais dissolvido, espalhado, com todos os instrumentos orientados de maneira a parecerem esparsos. Tal escolha parece fruto das diversas participações do grupo na construção de trilhas sonoras ao longo dos últimos anos, o que justifica a opção por um som mais solto, como se todos os instrumentos se manifestassem de forma preguiçosa ou realmente quando essenciais.

Mesmo nos momentos mais mais fáceis do álbum, a instrumentação parece evitar ao máximo qualquer tipo de excesso. Um belo exemplo disso está na dobradinha Deshoras e Ideas. Em ambas as composições, o grupo se aproxima de uma sonoridade mais pop e acessível, similar àquela encontrada em seu anteriores trabalhos, porém ainda distantes de velhas fórmulas radiofônicas, resultando em um som mais leve, quase esvoaçada. Isso faz com que em alguns momentos a mescla entre as tonalidades eletrônicas da banda (movida pelo cuidadoso uso de sintetizadores) e as guitarras distorcidas gerem uma climatização que se divide entre o shoegaze e o psicodélico, sempre de forma agradável e nunca exagerada.

Suave, A Propósito mostra uma banda em sua total maturidade, um registro que mesmo sem muito esforço consegue fisgar o ouvinte e o abraçar para dentro de sons tonalidades esvoaçadas e atmosféricas. A completa ausência de composições excessivamente fáceis, o que poderia resultar em  uma crise aos ouvintes do grupo acaba passando de forma despercebida em meio ao trabalho cuidadoso que o quinteto elabora através de suas melodias. Feito para ser apreciado seguidas vezes, o álbum é uma das boas obras que escapam dos limites territoriais de nossos vizinhos e que sem dúvidas não deve ser descartado.

 

A Propóstio (2011, Universal Music)

 

Nota: 7.6
Para quem gosta de: Emmanuel Horvilleur, Los Planetas e Polock
Ouça: Deshoras e Ideas

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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