Disco: “A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia”, Hierofante Púrpura

Categories Resenhas

Hierofante Púrpura
Psychedelic/Experimental/Lo-Fi
http://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Hierofante

Qualquer um que já tenha se aventurado pelas canções da Hierofante Púrpura sabe do estranho universo que caracteriza a obra do grupo. Em constante mutação desde o nascimento, com Asucar Çugar EP, de 2006, a banda de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, alcança o primeiro disco “inteiro”, revelando um natural estágio de conforto e agitação. Se por um lado a tapeçaria lisérgica de A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia evoca a mesma ambientação colorida de Transe Só EP (2011), por outro lado o uso de arranjos atmosféricos aproxima o grupo de um cenário ainda mais excêntrico, tão próximo quanto distante de tudo o que a banda já conquistou previamente.

Desenvolvido como uma obra de duas metades específicas, porém, complementares, o registro de 12 faixas cresce tento como um álbum de versões, como um novo catálogo de inéditas da banda paulistana. Aos comandos de Danilo Sevali, Gabriel Lima e Helena Duarte, músicas compostas por veteranos – caso de Yo La Tengo (Tears Are in Your Eyes) e Again (Castigando) – batem de frente com um corpo estranho de faixas esculpidas pela psicodelia Lo-Fi. Um curioso jogo de vozes, ruídos e climatizações soturnas que apenas expandem a composição excêntrica em torno da obra da banda.

Intencionalmente arrastado, o disco assume logo na abertura, com Vida e Morte de Ira Kaplan, toda a arquitetura letárgica que sustenta o restante das faixas. Enquanto nos EPs que antecedem o presente álbum, principalmente o último, a colagem de atos instrumentais e vozes aleatórias pareciam servir como uma assertiva engrenagem para para a composição estética do grupo, hoje pouco disso parece ter sobrevivido. De explícita homogeneidade lírica e (principalmente) sonora, o álbum mais parece um ruidoso esboço musical, exercício que até prende o ouvinte em um labirinto de essências familiares, mas que aos poucos pesa e reverbera desgaste.

Como uma faca de dois gumes, a interpretação densa da obra funciona tanto para o crescimento do disco, como para a quebra de determinadas faixas. Transcendentalizei, por exemplo, usa de todo o jogo ambiental das guitarras e vozes como um natural estímulo para acomodar e brincar com a mente do ouvinte. São quase sete minutos em que a voz de Sevali cresce como um confortável mantra, fazendo do refrão cíclico – “Resetei as idéias mais uma vez” – um mergulho lisérgico pela essência da banda. Do Rock Rural ao som alternativo dos anos 1990, décadas de referências parecem dançar pelos instantes da canção.

Já em Granada e I Don’t Know Why, respectivamente versões para músicas do La Carne e Mr. Airplane Man, toda essa “estratégia” desmorona sob a própria base das canções. Seja pela captação excessivamente caseira das vozes e sons, ou a simplicidade em torno dos arranjos, falta ao trio a mesma habilidade de capturar e arrastar o ouvinte para dentro de um cenário que originalmente provocativo. Essa mesma percepção de instabilidade esbarra nas “bucólicasO Cio da Terra (versão de Pena Branca e Xavantinho) e A Camisa Vermelha Sou Eu, músicas de evidente beleza, mas que parecem destoar do cenário perturbador que a tríade prepara desde a primeira faixa.

Sem ordem aparente e apresentado como uma espécie de coletânea, A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia (o título é ótimo) por vezes usa da própria atmosfera de “obra artesanal” como um mecanismo de defesa. Todavia, mesmo que a arquitetura Lo-Fi sirva como uma justificativa aos prováveis tropeços da banda, a julgar pelo mesmo exercício seguido nos EPs pregressos, a sensação de irregularidade se faz clara e constante em todo o disco. Se a banda já fez muito com tão pouco, o que justifica tamanho retrocesso? Ao final, permanece a sensação de uma previsível obra de grades ideias, boa parte delas não finalizadas.

 

Hierofante

A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia (2013, Transfusão Noise Records)

Nota: 6.0
Para quem gosta de: Wallace Costa, Sin Ayuda e Team. Radio
Ouça: Transcendentalizei, Mato Preto e Jazigo Meu ou Venha Ver o Sol Derreter

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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