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Disco: “Afro Noise, Vol. 1”, Cut Hands

Cut Hands
Experimental/Noise/Tribal
http://www.myspace.com/cuthands

Por: Fernanda Blammer

William Bennett é um grande pervertido. Durante boa parte da década de 1980 o produtor britânico aliado a uma série de outros produtores e músicos ingleses fez de seu projeto, o Whitehouse uma porta de entrada para um universo de composições sujas, letras sempre polêmicas e exaltações ao experimentalismo eletrônico. Sempre oculto em meio a paredões de sons rebuscados, picos de esquizofrenia, lógicas pervertidas e desenvolvendo a construção de um som da mais pura vanguarda, Bennett, embora pouco conhecido é uma das bases para uma série de artistas que hoje usam de seus trabalhos como grande fonte de inspiração.

Qualquer um que tenha ouvido Bermuda Drain, mais recente trabalho de Ian Dominick Fernow (Prurient) verá que muito do que determina a sonoridade do produtor norte-americano vem de claras referências ao trabalho de Bennett, que não satisfeito em ter elaborado uma série de excelentes álbuns ao longo de três décadas retorna com um novo projeto. Sob o nome de Cut Hands, o britânico se afunda em mais um lago de experimentações eletrônicas e ruidosas, dessa vez curvando seus olhares para um objetivo mais específico, a Africa.

Através de batidas assíncronas, uma percussão tribal eletrônica e claustrofóbica, além de um vasto jogo de texturas e sobreposições de sons rudimentares, Bennett apresenta ao mundo o estranho Afro Noise, Vol. 1 (2011, Very Friendly/Susan Lawly), álbum que além de perverter a lógica do próprio experimentalismo eletrônico transforma o continente africano em uma de suas estranhas ferramentas musicais, proporcionando um tipo de som que mesmo dentro de seus limites atmosféricos transpira crueza e ineditismo.

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Cada uma das composições que dão formas ao trabalho parecem construídas de maneira a instigar o ouvinte através do seu vasto jogo sonoro. Não existem fórmulas ou qualquer tipo de condução que movimente o disco, afinal, cada uma das faixas que vão se evidenciando puxam o disco para uma direção completamente distinta daquela apresentada anteriormente, proporcionando desde um ritual indígena futurístico como na música Rain Washes Over Chaff até a construção de um som puramente ruidoso e cacofônico, como em Nzambi Ia Lufua, faixa em que a soma de elementos sonoros causam profunda irritação ao ouvinte.

Ao mesmo tempo em que centraliza seus esforços em meio a diversas passagens sonoras distintas, como se cada nova composição fosse parte de um trabalho diferente, Bennett parece aos poucos montar uma espécie de trilha sonora imaginária, onde todas as composições parecem frutos de um mesmo universo. Cada uma das instrumentais criações do britânico vão lentamente moldando uma película fictícia, mesclando momentos de pura tensão (Stabbers Conspiracy e Munkisi Munkondi), cenas suaves (++++ (Four Crosses) e Impassion) e até momentos de pura ação (Backlash).

Afro Noise, Vol. 1 e a iniciativa através do Cut Hands parece ser uma grande fuga dos trabalhos de  Bennett através do Whitehouse, que nos últimos anos não foi capaz de proporcionar algum projeto realmente interessante (o último trabalho do produtor foi Racket de 2007). Fuga ou não, a iniciativa do inglês em reconfigurar os ritmos africanos dentro de uma fluência excêntrica e sons tomados de experimentações é algo que deu mais do que certo, afinal, por mais estranhas e difíceis que sejam as composições do produtor difícil não se entregar ao trabalho do britânico.

Afro Noise, Vol. 1 (2011, Very Friendly/Susan Lawly)

Nota: 7.7
Para quem gosta de: Whitehouse, Prurient e Throbbing Gristle
Ouça: Stabbers Conspiracy