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Disco: “Aláfia”, Aláfia

Aláfia
Soul/Funk/Alternative
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Por: Cleber Facchi

Aláfia

Música negra”. Este parece ser um rótulo automático, mas que inevitavelmente define a atuação do coletivo Aláfia no primeiro trabalho em estúdio do grupo. Autointitulado, o registro de 11 faixas atravessa qualquer estágio de aquietação em prol da versatilidade. Preferência assumida nas emanações que cruzam o Funk, bebem do Soul, caminham pelo Hip-Hop e ainda apresentam uma série de conceitos particulares ao longo das canções. Um verdadeiro bloco de experiências aglutinadas que borbulham no começo da década de 1950, com o brilho instável do jazz, e chegam ao presente cenário em um detalhamento que opta pela provocação.

Sem a necessidade em soar comercial ou minimamente aberto ao público médio, cada composição do disco encontra na perversão da própria essência um mecanismo de sustento e criativa transformação. Longe da redundância de outros projetos do gênero, inclinados a repetir a proposta de veteranos como Tim Maia, Gilberto Gil e tantos outros nomes que abasteceram a música brasileira nos anos 1970, ao pisar no presente disco o ouvinte é imediatamente transportado para um universo em plena (des)construção.

Movido pela coleção de ideias, resultado do time imenso de colaboradores que abastecem o disco – Xênia França (voz), Jairo Pereira (voz), Eduardo Brechó (voz e violão), Lucas Cirillo (gaita), Alysson Bruno (percussão), Pipo Pegoraro (guitarra), Gabriel Catanzaro (baixo) e Filipe Gomes (bateria) -, Aláfia (o álbum) é uma obra que brinca com as preferências. Enquanto faixas como Ela é favela e Dono da minha cabeça colidem referências em uma estética puramente instável, outras como Chicabum atentam para um resultado acessível, tratamento que não exclui a manipulação torta dos versos, arranjos e vozes.

Parte desse percurso torto do disco vem da própria essência dos integrantes, que assumem nos versos cotidianos de Mano Brown e na inquietação de Itamar Assumpção uma constante ferramenta para o disco. Exemplo mais eficaz desse labirinto de experiências está instalado de forma quebrada na arquitetura da música Em punga. Dividida entre as colisões sonoras da Vanguarda Paulista e o Hip-Hop dos anos 1990, a canção encontra nos versos ora cantados, ora rimados um constante senso de perturbação da ordem. A própria presença de Lurdez da Luz (Mamelo Sound System) funciona como um tempero extra para o teor ruidoso que ocupa versos e arranjos da canção.

Mesmo o forte senso de ruptura não distorce a capacidade da banda em produzir faixas íntimas do público. Com os dois pés apoiados na década de 1970, Mais Tarde amassa a base da Disco Music e a estrutura ampla do Afrobeat em um mesmo bloco de preferências. Um passo entre as pistas e os versos políticos, exercício que se repete em outros pontos estratégicos dissolvidos pela obra, como em Kwa Lé Ki pá. Há também criações mais lentas, caso de Dara Dara, composição que perverte todos os exageros da MPB em versos de pura confissão e arranjos melancólicos. Uma espécie de respiro dentro da comunhão peculiar do trabalho.

Ao mesmo tempo em que utiliza desse estágio de desordem como crescimento para o álbum, a constante quebra do disco estimula alguns tropeços desnecessários. É o caso da brega Homem que virou música, canção que se afasta do eixo central do disco, além de outras colisões de gênero que tornam a comunicação entre as faixas um exercício penoso em diversos aspectos. Aláfia, entretanto, cumpre com suas funções, fazendo de cada música um nítido experimento e a passagem para a construção de um universo próprio do grupo – independente do que ele possa se apoiar ou assumir em um futuro próximo.

 

Aláfia

Aláfia (2014, YB)

Nota: 7.6
Para quem gosta de: Pipo Pegoraro, Bixiga 70 e Criolo
Ouça: Kwa Lé Ki pá, Mais tarde e Chicabum

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