Disco: “Alexandre”, Mombojó

Categories Melhores Discos, Resenhas

Mombojó
Brazilian/Indie/Experimental
http://www.mombojo.com.br/

Não existem respostas dentro do universo instável de Alexandre (2014, Slap), quarto e mais novo registro de inéditas da pernambucana Mombojó. Impulsionado de forma explícita pela pergunta – “Are you sure?” -, o sucessor de Amigo do Tempo (2010) não apenas afasta o ouvinte do cenário triste do disco passado, como ainda amarra as pontas soltas do som inaugurado há uma década com NadadeNovo (2004). Arranjos corrompidos pela colagem de tendências, gêneros e influências, tudo se organiza de forma desconexa – como a capa do disco -, proposta confusa conceitualmente, mas que jamais exclui o raro comprometimento da banda em reinterpretar o pop.

Encarado como uma obra “experimental” e de “improviso” dentro da trajetória do grupo, Alexandre – o nome é uma piada interna, como a forma que um antigo teclado falava “Are you sure?” – nada mais é do que uma sequência dos ensaios abandonados em Homem-Espuma (2006). Sufocado pela morte precoce do flautista Rafael Barbosa, além do “quase fim” do grupo, o álbum de 2010 se revela cada vez mais como uma fuga dos conceitos iniciais dos recifenses. Uma curva (ou pausa) temporária dentro do caminho excêntrico que volta a ser assumido logo nos primeiros segundos de Rebuliço, canção de abertura do presente álbum.

Assertivamente festiva – como um single abortado da Copa do Mundo -, a música inaugural parece ser o princípio estético para o restante da obra: uma coleção de sintetizadores, ruídos, samples e vozes descompassadas que lentamente se encaixam, sem compromisso aparente. De onde o grupo parou há oito anos, com Minar, o novo disco não apenas resgata elementos primordiais, como os expande musicalmente. De uma partida de ping-ping (Ping Pong Beat) convertida em “instrumento”, ao uso de trechos em alemão da biografia do grupo, cada ruído cotidiano se converte em ferramenta, base que ao final de cada faixa é jogada para o alto e (re)organizada, partindo de novas regras.

Longe do contraste entre o analógico e o digital, evidente nos primeiros discos, Alexandre é uma obra que se revela essencialmente sintética, mas não menos humana. Nonsense em alguns aspectos, vide a composição lírica de Me Encantei Por Rosário, o álbum funciona como uma colagem de experiências típicas da geração Y. São frases curtas que bem poderiam vir de uma mensagem no WhatsApp ou diálogo no Facebook. Fragmentos lentamente organizadas dentro das harmonias pegajosas do álbum. Contrariando a lógica dos últimos discos, principalmente Amigo do Tempo, o novo registro foge de qualquer estágio de ordem, ambientando em canções avulsas e arranjos mutáveis um embate constante entre confusão e criatividade.

Todavia, mesmo explorado de forma inexata, Alexandre está longe de ser observado como uma obra torta, ausente de coerência. Exemplo disso está no uso assertivo dos convidados, responsáveis por botar o disco “de volta nos trilhos”. Céu, na pop Diz o Leão, ou Dengue (Nação Zumbi) na crescente Cuidado, Perigo! reforçam a homogenidade do trabalho, evitando que o próprio grupo se perca em emanações etéreas. Mesmo Laetitia Sadier, acostumada aos exageros lisérgico-experimentais do Stereolab, serve de âncora para o ambiente coeso de Summer Long. Por falar no coletivo francês e suas obras, é evidente a influência do clássico Emperor Tomato Ketchup (1996) além do Radiohead pós-Kid A (2000) dentro da “nova fase” Mombojó. Fagulhas criativas (e referenciais) para as pequenas explosões geradas a cada curva do registro.

Curto – são menos de 40 minutos de duração -, o álbum curiosamente desenvolve um efeito contrário na mente do ouvinte: parece ser uma obra imensa. Parte disso vem da inteligente colagem de fórmulas, métricas, ruídos e instrumentos dentro de cada música, tornando o álbum uma versão prensada dos dois primeiros discos da banda, além, claro, de todas as experiências paralelas de seus integrantes. Inexato e correto a partir de qualquer faixa, Alexandre é uma obra que aponta decididamente para a confusão, fazendo da ausência de regras uma estratégia para escapar de prováveis erros, além de um passo inteligente rumo ao acerto.

 

Alexandre (2014, Slap)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Cidadão Instigado, Apanhador Só e Stereolab
Ouça: Me Encantei por Rosário, Summer Long e Cuidado, Perigo!

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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