Disco: “Alvvays”, Alvvays

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Alvvays
Indie Pop/Alternative/Female Vocalists
https://www.facebook.com/ALVVAYS
http://alvvays.com/

Por: Cleber Facchi

A julgar pela forte relação musical de Grimes, Purity Ring e toda a nova geração de artistas canadenses, não seria estranho se a presente safra de projetos locais fosse guiada pelo mesmo caráter experimental / etéreo do “coletivo”. Entretanto, ao esbarrar na estreia do Alvvays – lê-se always -, curioso observar como as referências do grupo de Toronto não apenas se revelam contrárias ao atual panorama canadense, como ainda assumem elementos há muito apagados do rock norte-americano.

De evidente imposição nostálgica, o autointitulado debut se esquiva de fórmulas complexas para encantar pela suavidade. Diminuto – são apenas nove canções -, o disco abre de forma enérgica com as guitarras de Adult Diversion, assume os próprios sentimentos em One Who Loves You e só estaciona (de forma sutil) na derradeira Red Planet. Pouco mais de 30 minutos em que sonhos e desilusões de jovens adultos são delicadamente partilhados com o público.

Confortado em uma atmosfera caseira, explícita logo na voz rústica, ainda que doce, de Molly Rankin, o álbum é uma romântica travessia pelo tempo. Com referências (sentimentais) que vão dos Beach Boys ao Indie Pop britânico da década 1980, cada instante do registro se entrega – lírica e musicalmente – ao amor. Como a banda já confirmou em entrevista, grande parte das canções do disco refletem a vida sentimental de cada integrante, base autobiográfica que aos poucos se revela íntima do próprio ouvinte.

Dentro deste contexto não é difícil comparar a estreia do Alvvays ao trabalho já proclamado por outros veteranos. Nomes como Camera Obscura, The Pastels e até mesmo figuras recentes da música, como a californiana Best Coast, sobrevivem e ainda servem de estímulo para diversos arranjos e temas reforçados ao longo da obra. Porém, ao investir em versos que se entregam às próprias confissões, o grupo canadense rompe de forma assertiva com qualquer aspecto “copioso”, cercando o debut em um nítido espaço autoral.

Produtor do disco, o conterrâneo Chad VanGaalen assume justamente o posto de responsável por construir uma atmosfera própria para a obra. Não por acaso as faixas crescem sem exageros, revelando de forma controlada os mesmos sintetizadores e guitarras testadas pelo músico nos últimos trabalhos em carreira solo. Outro ponto curioso do trabalho diz respeito uso de ruídos doutrinados. Basta se concentrar nas distorções de Archie, Marry Me para perceber como as guitarras servem de alicerce e ao mesmo tempo contraste para a voz de Rankin, sempre acompanhada por boas (e pegajosas) melodias.

Sustentado por versos impregnados pela saudade, dor e separação, Alvvys é um disco que está longe de “sufocar” o ouvinte. A percepção sobre o álbum é curiosamente a oposta. Ainda que o disco se afogue na melancolia de One Who Loves You e Dives, fugir do cenário projetado pelo grupo canadense é algo que jamais passa pela mente do espectador. Afinal, como escapar de uma obra ao mesmo tempo autoral e capaz de descrever tormentos tão íntimos do ouvinte?

Alvvays (2014, Polyvinyl / Transgressive)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Camera Obscura, Fear Of Men e The Pastels
Ouça: One Who Loves You, Adult Diversion e Archie, Marry Me

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

2 thoughts on “Disco: “Alvvays”, Alvvays

  1. Poxa, que banda legal, ela tem uma pegada daquelas bandas com vocal feminino em alta nos 90’s, tipo Cranberries.

  2. Tava tentando descobrir se parecia com Cranberries ou outra banda, mas aí vi o comentário anterior! 🙂
    Banda MUITO boa!!!

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