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Disco: “Amarénenhuma”, Nuda

Nuda
Brazilian/Experimental/Psychedelic
http://nuda.com.br/
http://www.myspace.com/sitionuda

Por: Cleber Facchi

Existe algo de excêntrico, místico e inexplicável dentro das canções da pernambucana Nuda. Desde que Mais Cor, Menos Quem (primeiro EP do grupo) ganhou formas em 2008, com a banda trançando climatizações regionais, samba, rock e experimentalismos diversificados, que o quarteto originário da efervescente Recife curvou um bom número de olhares e ouvidos para si. A multiplicidade rítmica lançada pela banda rompe épocas, atravessa estilos, e transforma um oceano de referências em algo próprio, singular e de profunda comoção. Passados cinco anos de seu surgimento e com o primeiro LP em mãos torna-se a hora da banda se revelar aos que ainda os desconhecem, fazendo de Amarénenhuma (2011) um mergulho para dentro de um espetáculo único.

Como se preparasse o público para o colossal agrupado de ritmos que será entregue posteriormente, Raphiro (voz e guitarra), Henrique Caçapa (baixo e voz), Arthur Dossa (guitarra e voz) e Antonio Marques (bateria) fazem da homônima faixa de abertura um sambinha tímido, onde os vocais exaltando anseios românticos entrecortam os acordes rasos de guitarra e a percussão calma. Conforme a maré aumenta, cresce com ela o ritmo da faixa, instalando confortavelmente o ouvinte e fazendo com que ele observe de maneira atenta ao quarteto, se revezando entre sons que perpassam os anos 70, goladas densas da Tropicália e o explorar uma temática distinta, mesmo dentro da multicultural terra do Manguebeat.

Dando um toque psicodélico aos carnavalescos ritmos locais, a banda entrega em sequência Samba de Palheta e Toque para Calhetas, uma dupla de composições marcadas por um ritmo quente, sons suingados e doses cuidadosas de experimentalismo. Em contraponto à letra fácil da faixa de abertura, com as duas recentes composições o grupo apresenta o meticuloso e peculiar jogo de versos executados pela Nuda. Nada de trovas que se encaixam em uma métrica tradicional, rala e monótona, cada estrofe que se segue decodifica expressões típicas, significados próprios e contextos únicos, onde o que poderia se transformar em um simples apontamento de como chegar à praia de Calhetas, se reconfigura em um baralho de palavras, em que cada carta lançada abre um leque de novas interpretações.

Única composição marcada pela ausência de palavras, A Pedra abre espaço para que o grupo dissolva com maestria os acordes instáveis de suas guitarras. Lembrando o que poderia estar no álbum Mestro da paulistana Hurtmold, a canção rasga o disco em duas metades, deixando que a tranquilidade fique de lado para que o grupo adentre um terreno ainda mais pesado, intenso e que exponha sua sonoridade de forma muito mais crua. Dando formas a um “indie rock à brasileira”, os pernambucanos nos apresentam à Maruimstad, faixa que brinca com os tons e que traz uma efemeridade pop ao som da banda, em que os versos, duelando com os acordes, colam fáceis nos ouvidos.

Com Ode aos Ratos – originalmente gravada por Chico Buarque em seu último disco de estúdio, Carioca de 2006 – o quarteto se perde de vez em meio a acordes sujos, dentro uma temática que se enterra até o pescoço na década de 1970 e que dá ao disco um clima obscuro e sério. Tomada pela chuva de acordes espessos, a canção sai das mãos do compositor carioca para brilhar como criação própria dos jovens recifenses. O trava-linguas próximo do fim da música se converte em um jogo cacofônico de palavras, dentro de um duelo onde os vocais de Raphiro se esbarram nas guitarras de Dossa, que por sua vez confrontam o baixo de Caçapa, encarando sem timidez a bateria seca de Marques.

Disparada a composição mais versátil do álbum, Em nome do Homem costura versos existencialistas (“Lixo nas veias, ceias e canais/ o homem come demais/  ele consome demais e se consome em seus vícios”), com um instrumental que vai do tango ao rock alternativo em poucos segundos. É nessa hora que a banda revela toda a pluralidade de sons que se abriga nos gênios de seus criadores, não poupando peso, vozes e os mais variados tipos de som. A excelência da faixa torna-se ainda maior com a entrada da canção que a procede, Pisa, um puro exemplar da face experimental da banda e uma concisa massa de sons duros, que se chocam incessantemente no que soa como uma alvorada do lado “noise” do quarteto.

Próximo do fim e apontando o que parece ser uma total compreensão sobre seus instrumentos, letras e formas acústicas, a banda se entrega de vez em meio a uma viagem sonora de forte psicodelia, inconstância rítmica e de pura beleza excêntrica. Trazendo religião como elemento de centro e fracionada em três atos, Acorde Universal desperta a banda em seu estado maior de lirismo, retratando questões como a fé, profecias e alguns toques de delírio, algo que parece se intensificar ainda mais na faixa seguinte, a melancólica Eu e/ou você Doutor. Para o fecho do disco, o quarteto constroi Prece da Ponta de Faca, que mesmo ausente do peso de outrora mantém a mesma maestria do grupo, lembrando de leve um Gilberto Gil no auge da criatividade ou os primeiros álbuns de Zé Ramalho.

Com produção dividida entre o músico Pablo Lopes e a própria banda, Amarénenhuma é um trabalho singular, mesmo dentro da profusão de ritmos, formas e distinções que tomam a música nacional desde seus primórdios. Por mais que algumas composições tragam o álbum para perto de uma sonoridade “fácil”, se aventurar por dentro das texturas e múltiplas formas instrumentais da banda torna-se uma atividade arriscada, complexa em certos pontos, mas recompensadora em seu final. Ao mesmo tempo em que desponta um caráter hermético, o disco parece se abrir a todo o momento, reformulando constantemente suas formas e atendendo aos mais variados gostos e anseios musicais. Um trabalho simplesmente complexo, que corrompe a lógica da própria música e que acima de qualquer coisa, corrompe nossa própria lógica.

Amarénenhuma (2011)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Cidadão Instigado, Wado e A Banda de Joseph Tourton
Ouça: O disco todo

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