"Amygdala"

DJ Koze

Ano: 2013
Selo: Pampa
Gênero: Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Four Tet e Mathew Dear
Ouça: Das Wort, My Plans e Nices Wölkchen
Nota: 8.8

Disco: “Amygdala”, DJ Koze

Se a música eletrônica é marcada por divisões contínuas e subgêneros que nascem a cada dia, então Stefan Kozella parece ter encontrado um espaço próprio. Habitante de um universo excêntrico e nunca regular, o produtor originário de Hamburgo, Alemanha parece seguir um curso contrário ao que alimenta a música atual. Enquanto cada artista parece buscar por um som particular, o artista (que se apresenta como DJ Koze) transforma as sobras de tudo o que solidifica a cena recente de forma a alimentar as próprias composições. Um trabalho genuinamente pensado em cima da eletrônica, ao mesmo tempo em que soa como Pop, raspa no Syhtpop, tem gosto de R&B, brinca com o experimental e, enquanto você lê este texto, acaba de se transformar mais uma vez.

Sem jamais se preocupar com o tempo ou em busca de um resultado comercial, Koze atravessou quase uma década desde que lançou Kosi Comes Around, em meados de 2005. Muito mais interessado nas resoluções matemáticas e pontuais da eletrônica na época do lançamento do álbum – talvez resultado da aproximação com o selo Kompakt -, o produtor deixa as pequenas doses de autocontrole de lado, transformando Amygdala (2013, Pampa) em um mundo novo para as próprias invenções. Muito mais extenso e bem aproveitado que o registro anterior, o novo disco afasta o produtor do que circula na música atual, se manifestando como um resgate sonoro de tudo o que o artista parece ter vivido nos últimos anos.

Ainda que o esqueleto da obra se sustente em cima de uma formatação eletrônica e de natureza sintética, cada faixa preenche os músculos que movimentam o trabalho com sons totalmente orgânicos. São os diálogos esporádicos em Track ID Anyone?, vocais cantados no “remix” de Homesick (faixa que revive a canção de mesmo nome do Kings Of Convenience) ou mesmo a melancolia acolhedora nos versos quase declamados de Das Wort. Referências diversas que afastam o produtor do que seria encontrado em um projeto comum, posicionando Kozella em um cenário que parece totalmente compreendido por ele. É a partir desse ponto que Koze estreita os laços com o presente, mantendo o álbum íntimo daquilo que Four Tet, Caribou e outros produtores têm feito para reformular a eletrônica.

Como se tivesse viajado no tempo ou talvez mergulhado em um plano hermético durante anos (algo que pode até ter acontecido), o que auxilia DJ Koze na construção do registro é a participação constante de uma variedade de colaboradores. Ocupando posições bem estabelecidas por toda a obra, nomes de destaque ou artistas pouco conhecidos preparam o terreno ou surgem como complemento para o que Kozella lentamente finaliza durante a obra. Enquanto Dan Snaith (Caribou/Daphni) parece apontar a direção por diversas vezes ao produtor, nomes como Matthew Dear auxiliam na construção do lado mais pop da obra, alinhamento bem representado no clima dançante (e experimental) de My Plans.

Todavia, é na parceria com uma variedade de artistas germânicos que Koze celebra as maiores canções de todo o disco. Não importa se são nomes de destaque como Apparat (em Nices Wölkchen) ou artistas conhecidos apenas por lá, caso de Dirk von Lowtzowm (na macambúzia Das Wort): ao lidar com produtores locais Stefan parece realmente  estar em casa. Seja por meio da construção de faixas marcadas pela eletrônica convencional ou músicas enquadradas dentro de um contexto versátil, o produtor faz da relação com músicos conterrâneos o pilar que sustenta o clima mágico do disco, deixando para a relação com os estrangeiros um exercício de aproximação com o próprio público.

Não há em Amygdala qualquer ponto de equilíbrio, o que garante ao disco (mesmo depois de incontáveis audições) um caráter de mutabilidade constante. Em alguma medida DJ Koze parece íntimo de tudo o que construiu há alguns anos, mas ao mesmo tempo parece ter viajado décadas até alcançar a massa volátil de sons que lentamente se espalham pela obra. Mesmo limitador do ponto de vista experimental, o registro arma uma série de artifícios que uma vez capazes de aprisionar o ouvinte, fazem dele parte do mesmo estranho universo que apenas Kozella e alguns raros convidados parecem aptos a visitar.


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