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Disco: “Anganga”, Juçara Marçal & Cadu Tenório

Juçara Marçal & Cadu Tenório
Nacional/Experimental/Afro-Noise
https://cadutenorio.bandcamp.com/

 

Há tempos Cadu Tenório não presenteava o público com uma obra tão caótica quanto Anganga (2015, Sinewave / QTV). Parceria com a cantora Juçara Marçal, o álbum de apenas oito faixas traz de volta toda a carga de experimentos e sons metálicos incorporados pelo músico desde os ensaios com o (temporariamente silenciado) coletivo Sobre a Máquina. Texturas sobrepostas, colagens e batidas sujas que caminham paralelamente com a voz límpida de Marçal, tão íntima da essência e do canto africano, quanto responsável pela avalanche de gritos angustiados que cobrem o disco.

Fuga explícita do som incorporado pela dupla em seus respectivos trabalhos em carreira solo – Marçal com Encarnado e Tenório com delicado Vozes, ambos de 2014 -, Anganga, mais do que uma obra completa, soa como um exercício de descoberta. De um lado, o tecido sombrio criado pelo uso de microfones, sintetizadores, bateria eletrônica e todo o catálogo de instrumentos não convencionais do músico carioca; no outro, a interferência deslocada da voz de Marçal, um instrumento vivo, por vezes descontrolado, nas mãos do colaborador.

Movido pela incerteza, cada faixa do registro sobrevive como um objeto isolado, instável. Ainda que a numeração na série CantoII, III, VI e VII – pareça indicar um possível traço de linearidade no interior do disco, basta uma rápida audição para perceber a pluralidade de temas, bases instrumentais, encaixes e vozes que mudam de direção a cada nova faixa. Fragmentos que vão do minimalismo (Canto II) ao uso de elementos perturbadores, essencialmente ruidosos (Grande Anganga Muquixe).

Anganga, como o próprio título do trabalho indica – “entidade suprema do povo banto… àquele cuja ‘gunga não bambeia’, o mestre, o mais velho” -, é uma obra de reverência. De fato, boa parte do álbum utiliza de versos extraídos do LP O Canto dos Escravos, trabalho lançado em 1982 pelo filólogo, professor e linguista mineiro Aires da Mata Machado Filho; uma compilação de cantos ancestrais dos negros benguelas de São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais. Longe de parecer o núcleo da obra, apenas o ponto de partida da dupla.

Bom exemplo disso está em Canto II. Enquanto a voz de Marçal tenta ocupar terreno depois de derrubar a parede de ruídos levantada por Tenório, uma base invasiva, metálica, lentamente cerca e completa o canto sóbrio da artista. Originalmente interpretada por Clementina de Jesus no registro lançado em 1982, a canção reaparece musicalmente triturada, urbana e sombria. Uma montagem desconstruída, torta, estímulo não apenas para o curto acervo de adaptações, mas todo o arsenal de faixas inéditas assinadas pela dupla.   

Gravado separadamente – Marçal registrou as vozes no Estúdio Fine Tuning, em São Paulo, enquanto Tenório gravou os instrumentos no Estúdio 503, no Rio de Janeiro -, Anganga funciona como um turbulento ponto de encontro entre os dois artistas. Uma obra de essência nostálgica, mas que lentamente mergulha em um cenário atual, violento e insano.  

 

Anganga (2015, Sinewave / QTV)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Sobre a Máquina, Ceticências e Metá Metá
Ouça: Canto II, Eká e Canto VII