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Disco: “Angels & Devils”, The Bug

The Bug
Electronic/Hip-Hop/Dubstep
http://ninjatune.net/us/artist/the-bug

Por: Cleber Facchi

Poucos trabalhos resumem de forma tão expressiva a cena britânica da última década quanto London Zoo. Terceiro álbum de estúdio de Kevin Martin à frente do The Bug – um dos inúmeros projetos paralelos do artista -, o registro lançado em julho de 2008 se espalha como uma verdadeira colcha de retalhos instrumentais. Dub, dancehall, dubstep, grime e Hip-Hop; referências ainda presentes na assinatura musical do produtor, porém encaradas sob novo detalhamento no recente Angels & Devils (2014, Ninja Tune).

Natural continuação da sonoridade lançada por Martin em Filthy EP, de 2013, o novo álbum cresce como um registo voltado em essência no Hip-Hop, costurando aleatoriamente os temas ressaltados anteriormente pelo produtor. Trata-se de uma obra feita para desbravar territórios, capaz de dialogar com diferentes cenas/tendências urbanas ao redor do globo, porém, sem escapar das imposições autorais do próprio criador.

Parte dessa pluralidade reside na busca de Martin por colaboradores alheios à cena britânica – posição ressaltada no zoológico de espécies locais do trabalho passada. São representantes de peso da música norte-americana (Death Grips, Gonjasufi), germânica (Inga Copeland), além, claro, de parceiros que marcaram presença em grande parte do álbum de 2008 – caso específico de Warrior Queen e Flowdan. Curiosa também é a inclusão de nomes como Liz Herris (Grouper) e outros instrumentistas externos ao ambiente “natural” do artista, forçando ainda mais o aspecto amlpiado da obra.

Musicalmente ponderado em relação ao campo imenso explorado em London Zoo, Angels & Devils é uma obra que mantém sob controle toda a estrutura dos arranjos e bases assinadas por Martin – ou mesmo seus colaboradores. Grande parte das composições parecem impulsionadas por uma mesma concepção rítmica, sonoridade explícita no uso das texturas ainda mais densas, sobrepostas ao uso de batidas limpas, além do expressivo espaço para os vocais. Entretanto, como a dualidade do próprio título resume, dois espaços distintos crescem no interior do trabalho.

A primeira metade – mística e serena -, tem início logo na faixa de abertura, Void (com Liz Harris), e segue até a sexta música do álbum, Save Me, desenvolvida ao lado de Gonjasufi. Ainda que tímido em razão dos temas, trata-se da porção mais inventiva do todo o novo trabalho de The Bug. Faixas atmosféricas como Pandi e Ascencion, capazes de reforçar a comunicação do produtor com a IDM/Ambient da década de 1990 e, ao mesmo tempo, estreitar o lado “religioso” ressaltado no título do disco. Já na segunda metade: os demônios. Batidas secas e bases sujas que iniciam em The One (com Flowdan), derrubam o ouvinte do paraíso e ainda arrastam o álbum para uma pista de dança infernal, quase íntima do trabalho anterior e silenciada apenas no último grito de Dirty.

Mais do que uma obra temática/dicotômica, Angels & Devils revela na própria divisão a sabedoria de Kevin Martin em produzir um registro capaz de suprimir (ou ao menos diminuir) a pressão criativa alcançada do disco passado. Ainda que comparações a London Zoo sejam inevitáveis, a proposta desenvolvida pelo produtor logo distancia o pensamento do ouvinte, obrigado a se decidir não mais ente “um disco e outro”, mas entre o céu e inferno que divide a presente obra.

Angels & Devils (2014, Ninja Tune)

Nota: 8.0
para quem gosta de: Death Grips, Gonjasufi e King Midas Sound
Ouça: Fall, The One e Fuck You

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