"Animal"

Ano: 2014
Selo: DeckDisc
Gênero: Pop Rock, Synthpop
Para quem gosta de: Marina Gasolina e Boss In Drama
Ouça: Desagradável Aparelho, Abduzida
Nota: 8.0

Disco: “Animal”, Adriano Cintra

O pop sempre foi a base da música de Adriano Cintra. Ainda que os registros lançados pelo Cansei De Se Sexy sejam o principal ponto de referência em se tratando do trabalho do músico/produtor, basta se concentrar nas melodias exploradas pelo Thee Butcher’s Orchestra ou em projetos assinados com Marcelo Jeneci e Marina Vello para perceber a capacidade do paulistano em transitar e brincar com gênero, sem necessariamente fazer disso um som descartável ou minimamente comum.

Com a chegada de Animal (2014, DeckDisc), primeiro registro em carreira solo, o pop não apenas funciona como a principal ferramenta para Cintra, como ainda se curva e é moldado de acordo com as exigências do versátil produtor. Letras grudentas, arranjos plásticos e todo um arsenal de referências feitas para grudar. Da música disco em 1970 (Desde o Início), passando pelos exageros dos anos 1980 (Não Ladrão), até alcançar a flexibilidade do estilo na década de 2000, cada curva da obra arremessa o ouvinte para um novo e divertido cenário musical.

Representado com acerto pela capa “curiosa” que ostenta, Animal é um verdadeiro “Frankenstein Pop“, colecionando e adaptando um catálogo imenso de tendências líricas e instrumentais. Tendo nos sintetizadores a principal ferramenta de trabalho, Cintra não demora a explorar sentimentos (A Sedução de Um Desejo), desenvolver diferentes personagens (Abduzida, Boneca de Posto) e ainda esbarrar em temas cotidianos/nonsenses com uma leveza tão rara, que é quase impossível não voltar ao começo do disco tão logo a derradeira Fracasso Favorito chega ao fim.

Quando foi a última vez que você sentiu vontade de ouvir uma música cantada por Rogério Flausino? Nunca? Basta uma visita rápida ao som nostálgico de Desde o Início – no melhor estilo Daft Punk em Random Access Memories (2013) – para logo ser convencido pelo cantor. E não é apenas o vocalista do Jota Quest que passeia confortável pelo interior do disco. Da onipresente Nana Rizinni, responsável pelos vocais de apoio em grande parte das faixas, passando pelo veterano Guilherme Arantes em Não Vai Dominar, todos os convidados e músicos de apoio reforçam a liberdade encontrada dentro do domínio pop de Cintra.

Da herança do CSS, pouco (felizmente) parece ter sobrevivido. Salve os sintetizadores e batidas eletrônicas em Não Ladrão – um clone personalizado do clássico Alala -, Cintra revela em Animal um acervo raro de faixas marcadas pelo frescor. Compostas em inglês entre dezembro de 2012 e o Carnaval de 2013, as canções logo foram distribuídas entre Gaby Amarantos, Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada), Kiko Dinucci (Passo Torto, Metá Metá) e outros nomes ativos da cena nacional; responsáveis por adaptar ao português cada peça do compositor. Como resultado, uma imensa colcha de retalhos delicadamente tecida para o público e aparada por Cintra em estúdio, artesão responsável por um dos maiores acervos do pop nacional recente.

Versos acessíveis em Duda, sintetizadores hipnóticos no interior de Desagradável Aparelho, além das boas guitarras de Invisível. Em se tratando de elementos radiofônicos, voltados ao ouvinte médio, o álbum não apenas cumpre suas funções, como ainda derruba possíveis bloqueios e limites estéticos que separam o “alternativo” do “pop”. Uma obra que poderia ser de Lulu Santos nos anos 1980, talvez de Latino na década seguinte, mas que cresce de forma autoral e perene dentro dos domínios do paulistano. Logo, a única dúvida que resta sobre Animal é: por que Adriano Cintra não lançou este disco antes?

 


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