"As Plantas Que Curam"

Ano: 2013
Selo: Other Music
Gênero: Indie Rock, Rock Psicodélico
Para quem gosta de: Carne Doce, Luziluzia
Ouça: Lucifernandes, Doce
Nota: 8.0

Disco: “As Plantas Que Curam”, Boogarins

Para o bem ou para o mal, a extensa obra d’Os Mutantes serviu de forma a estigmatizar toda a produção psicodélica nacional. É difícil passar por qualquer registro – antigo e recente –  sem esbarrar em traços específicos daquilo que o grupo veterano cultivou há algumas décadas, efeito que impulsiona uma sequência de jovens iniciantes – a maioria – para junto de um som copioso, fantasiado de reverência. Curioso que ao passear por As Plantas Que Curam (2013, Other Music), estreia da banda goiana Boogarins, toda a essência de Arnaldo Baptista e seus parceiros se manifeste clara e identificável, mas nem por isso incapaz de borbulhar inédita nos ouvidos do espectador.

Manipulado do princípio ao fim pelo enquadramento áspero das guitarras, a estreia da banda – comandada por Fernando Almeida e Benke Ferraz – está longe de esbarrar em qualquer aura hippie-nostálgica ou de composição minimamente preguiçosa. Dinâmico e manipulado do princípio ao fim em um intencional tom de urgência, o álbum substitui o bucolismo ocasional, ou mesmo as extensas viagens lisérgicas por uma composição urbana dos temas. Claro que a banda ainda passeia abertamente pelo uso de efeitos, distorções e vozes instrumentais, mas nada que se deixe consumir pelo excesso, como se mesmo a viagem proposta pelo grupo fosse programada.

Logo de cara, as guitarras de Lucifernandes, melódica canção de abertura, entregam com propriedade o quanto os rumos do grupo são outros. Ainda que a essência das décadas de 1960 e 1970 esteja dissolvida por toda a obra, em um imenso caleidoscópio de cores e sons, há na fluidez jovial um evidente senso de aproximação com o presente. Seja nos paredões de distorção que remetem ao trabalho do Tame Impala (Erre), como nas guitarras sujas que mergulham na cena californiana recente (Hoje Aprendi a Verdade), mais do que visitar os clássicos, a banda parece inclinada a brincar com o hoje.

Lançado como parte de um EP há alguns meses, As Plantas Que Curam segue até o eixo central do trabalho em uma engenharia ascendente de arranjos. É como se as guitarras de Infinu, ou a lírica bem aproveitada de Despreocupar fossem orquestradas como pequenos atos para o que é pontuado na melancolia de Fim. Branda e conduzida por violões de apelo Lo-Fi, a canção é um olhar (quase) confesso para o rock nacional da década de 1970 – sejam Os Mutantes ou os mineiros do Clube de Esquina. Mais do que isso, a faixa é a abertura para o eixo lisérgico e naturalmente caseiro da obra, algo que os abusos confessos de Doce – em uma clara alusão ao LSD -, manifestam com uma overdose de experiências próximas do nonsense.

O que antes era articulado em um jogo veloz de acordes, bases e vozes, ao esbarrar em canções como Eu Vou e Paul puxam a banda para um campo de experimentações tímidas. Vozes onduladas e acordes lentos fixam o questionamento: Seria uma possível antecipação dos rumos futuros do grupo ou apenas o resultado de alguma substância de efeito tardio? Independente da resposta, a quebra garante reforço ao álbum, como um respiro em meio ao amontoado raivoso de sons que a banda sustenta durante os minutos iniciais.

Propositalmente desenvolvido como uma obra de descoberta, a estreia do Boogarins parece apresentar ao grupo quais são os limites e até onde o grupo já chegou. Se por um lado a parte inicial da obra se manifesta finalizada, límpida, para os instantes iniciais a banda foca na desconstrução. Com os ouvidos apontados para o passado e o presente em uma divisão quase exata, a banda articula a construção de um redemoinho instável de referências, uma obra que mesmo arquitetada de forma a anunciar princípios e essências, não esquece do mais importantes: revelar a já bem definida identidade do grupo.

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