Disco: “Atmosfera”, Rádio Morto

/ Por: Cleber Facchi 19/04/2011

Rádio Morto
Brazilian/Experimental/Ambient Dark
http://www.myspace.com/radiomorto
http://radiomorto.blogger.com.br/

Por: Fernanda Blammer

São infelizmente escassos no Brasil trabalhos como este Atmosfera (2011), novo álbum do projeto paulistano Rádio Morto. Desenvolvido todo de maneira artesanal, o disco é uma coleção de faixas do mais puro brilhantismo experimental, mesclando sonorizações com foco na música ambiente, poesia e uma climatização que transita pelo soturno, o introspectivo e o melancólico. Trazendo elementos do drone, lo-fi, folk e do dark ambient, o álbum é um convite a adentrar um universo hermético e totalmente próprio, onde a ausência de cores e uma sensação pós-apocalíptica pairam no ar.

Tanto o atual registro quanto os demais trabalhos lançados pela Rádio Morto – uma coleção com mais dez discos, se dividindo entre EPs e Long Plays virtuais – são frutos da mente (insana) do músico Raphael Mandra, responsável pelas letras, vozes, sonorizações e demais ruídos que são encontrados ao longo do trabalho. Atmosfera, assim como todos os outros frutos desse projeto são obviamente voltados aos nichos, nesse caso, os interessados em sonorizações excêntricas, repetições ruidosas e músicas construídas com base na colagem excessiva de nuances experimentais.

Assim como Jesus-Zarathustra e Como a morte se infiltra, ambos discos de 2010, Mandra desenvolve uma sonoridade inconstante, que embora desponte uma musicalidade puramente etérea está constantemente amarrada a um denso e concreto panorama urbano, repleto de sentimentos que se dividem entre o rancor, o melancólico e o solitário. Porém, enquanto os trabalhos anteriores davam voz a uma expressão muito mais simplista (como se o músico estivesse em busca de sua própria sonoridade), o presente registro se apresenta de forma decidida facilmente se sobrepondo aos álbuns de outrora.

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Se antes resquícios do post-punk do Swans, Joy Division ou mesmo a música industrial do Nine Inch Neils se apresentavam através de pequenos traços nos trabalhos do paulista, vê-se agora uma clara aproximação com o drone, principalmente reverberando discos como Black One (2005) e Monoliths & Dimensions (2009) do Sun O))). Porém, enquanto a banda de Seattle se aproxima muito mais de uma instrumentação voltada ao Doom Metal, o Rádio Morto desponta um caráter totalmente orgânico, mesmo em meio às inúmeras sobreposições ruidosas.

Dando complemento à sonoridade rebuscada do disco, Mandra despeja uma série de versos obscuros, repletos de pessimismo e constatações niilistas, onde o ser humano é o grande alvo de poemas raivosos, repletos de desprezo e acidez. Contudo há espaço para raros momentos de “esperança”, como O vendaval, faixa que traz o desejo de mudança em seus versos, ou ainda Ave Negra, inevitavelmente fazendo referência a Edgar Allan Poe, trazendo mais uma vez a tonalidade negativista do álbum. Talvez pela baixa qualidade dos vocais (em sua maioria versos sendo declamados), torna-se visível o quanto os momentos puramente instrumentais se destacam ao longo do álbum. Tanto a abertura com Ad Eternum quanto a bizarra Carnaval no Cemitério (uma espécie de samba esquizofrênico) fazem com que as experimentações alcancem seu melhor resultado dentro do disco.

Qualquer um que tente se aventurar pelas intransponíveis canções do Rádio Morto em busca de um resultado pop ou no mínimo acessível deve manter distância do atual registro (ou mesmo dos anteriores). Atmosfera é um trabalho denso, feito visivelmente para um público específico e muitas vezes raro em terras tupiniquins.

Atmosfera (2011)

Nota: 7.0
Para quem gosta de: Sun O))), Earth e Om
Ouça: Ad Eternum

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.