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Disco: “Avante”, Siba

Siba
Brazilian/Alternative/Rock
http://www.myspace.com/sibaeafuloresta

Por: Cleber Facchi

Não há nada mais corajoso (e louco) do que um artista imerso em uma fórmula musical bem sucedida dizer adeus a tudo (ou quase tudo) que lhe garantiu destaque em busca de um resultado novo e desafiador. Embora seja uma estratégia arriscada, não são poucos os que fazem disso um mecanismo para cada novo lançamento – Radiohead e Björk estão aí para comprovar -, entretanto, ao voltarmos nossos olhos para a música brasileira, em que as conturbadas possibilidades de lançar um novo trabalho praticamente obrigam alguns artistas a seguirem determinada ordem, encontrar alguém que rompa com essa lógica é algo raro e que deve ser observado de forma atenta.

Depois de apresentar dois excelentes discos que retratavam as múltiplas tonalidades da música trabalhada na Zona da Mata pernambucana – A Fuloresta do Samba de 2003 e Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar de 2007 -, Siba retorna agora com um registro parcialmente distante de suas anteriores investidas musicais, Avante. Oposto do regionalismo natural que habitava os dois anteriores projetos do músico, o recente álbum abre possibilidades para que Siba percorra um universo de guitarras leves e incursões sonoras que praticamente o transportam para idos da década de 1990, quando ainda fazia parte do grupo Mestre Ambrósio, um dos grandes e ingenuamente desconhecidos representantes do Mangue Beat.

Se antes a cultura regionalista era o centro dos trabalhos de Siba, aqui ela ainda se faz presente, entretanto, posicionada como um enorme plano de fundo, não exposto em cores fortes e vibrantes, mas dentro de uma leveza em tom pastel. Distante da orquestra de colaboradores, Siba passeia “solitário” ao longo do registro, distribuindo acordes eletrificados que mesmo capazes de pender para a agressividade em alguns momentos (como no decorrer de Canoa Funda ou na extensão da faixa título), acabam estabelecendo uma leveza satisfatória e envolvente.

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Mesmo que o trabalho não corresponda à grandiosidade do lançamento anterior – provavelmente uma das grandes obras musicais que a cena nacional produziu na última década – e possa em diversos momentos se evidenciar como um tratado sonoro indisposto da mesma multiplicidade de ritmos, formas e texturas de antes, a naturalidade com que o disco se movimenta satisfaz. Fernando Catatau, produtor do trabalho deixa em cada canção uma marca visível de seu trabalho, auxiliando Siba no desenvolvimento de um álbum que permanece dinâmico e cativante até a execução da última faixa.

Assim como na execução dos trabalhos anteriores, a poesia de Siba se desdobra em um leque de inúmeras possibilidades – uma ótima resposta aos que possam se incomodar com a “simplicidade” do registro. Cada música parece se concentrar na execução de aspectos que circundam o próprio cotidiano do artista, que entre pequenas historietas ainda aproveita para executar analogias comicamente exploradas, como na construção dos versos de Canoa Furada. Talvez a única inclusão desnecessária dentro da obra seja a presença de Lirinha no declamar de Um Verso Preso, fazendo com que o ex-vocalista do Cordel Do Fogo Encantado acabe soando como uma cópia de si próprio, além de quebrar a leveza do registro.

Talvez aos “puristas” – ou chatos – o rock com sotaque e tempero regional proposto por Siba acabe irritando ou soando de forma incompatível com o que há demais comercial por aí. Estes deixarão passar um registro rico, convidativo e genuinamente brasileiro, aspecto que o pernambucano busca reforçar em cada acorde ou verso trabalhado ao longo da obra. Avante honra o título que traz estampado em sua capa, com Siba propondo um trabalho sempre mutável e nunca preso à velhas ou garantidas fórmulas.

Avante (2012, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Cidadão Instigado, Pélico e Mestre Ambrósio
Ouça: Brisa, Avante e Canoa Furada