Disco: “Bandarra”, Tibério Azul

Categories Resenhas

Tibério Azul
Brazilian/Alternative/Indie
http://tiberioazul.com.br/

 

O que é Bandarra além da obvia definição gerada pelo dicionário? Seria “o nome de uma luz”? O “nome de uma estrela dez vezes mais quente do que o Sol”? Quem sabe até, “o nome de um jogo para Playstation”? Talvez Bandarra seja realmente tudo isso e até um pouco mais, como fica subentendido ao longo do primeiro álbum solo do recifense Tibério Azul. Entretanto, tão vasto quanto o nome do trabalho é o conjunto de 10 canções que dele brotam, faixas que nos permitem adentrar mesmo que por alguns minutos a curiosa mente do compositor pernambucano.

Criador da cultuada banda Mula Manca & a Fabulosa Figura, além de assumir as rédeas do projeto Seu Chico – que visa reinterpretar ao vivo as composições de Chico Buarque sob nova roupagem -, Tibério transforma seu “debut” em um verdadeiro achado musical. O disco surge como um vasto cruzamento entre a leveza da MPB, toques de jazz, flertes com o rock, algumas doses de regionalismo e um intenso conjunto de belas poesias, faixas que se ligam aos seus antigos e já conhecidos versos, mas que aqui agregam um toque de novidade.

Solto e carregado por um fino toque de descompromisso, o músico vai apresentando suas canções de forma leve, desenvolvendo cada faixa com certa dose de paciência. A sensação repassada é a de que Tibério se apresenta como um hábil artesão ou como ele mesmo aponta, um Alquimista Tupi. Flutuando em algum lugar entre a década de 1970, porém mantendo um forte laço com o presente, o recifense vai sem pressa nos apresentando seu doce composto musical, fazendo com que a audição do álbum flua precisa e dona de seu próprio tempo.

Contrário ao que desenvolve em suas paralelas bandas, em Bandarra o pernambucano surge imerso em uma camada de sons orgânicos e que parecem até ganhar vida própria. Da capa esverdeada aos versos doces que são apresentados, o registro vai lentamente agregando um caráter quase bucólico, meio nostálgico em algum momento, como se o disco fosse algum raro trabalho perdido no tempo e que acaba de ser descoberto. Principalmente em seus momentos mais acústicos é visível um fino traço de rock rural, claro, longe da exaltação hippie ou dos excessos que compreendem o gênero. Apenas um tipo de som interiorano, simplista, porém encantador.

A aproximação de Tibério com os sons do passado estão por todos os cantos do álbum, como se o músico dialogasse diretamente com o que fora propagado há 30 ou 40 anos. Do quase blues em De onde eu sou aos contornos sóbrios da rural Quando Maria me fundou o carnaval, cada composição presente no disco emana uma suave aura nostálgica, um peculiar perfume envelhecido e uma doce sutileza que nos transporta para um universo onde tudo é mais simples, menos corrido e naturalmente convidativo.

Essa constante busca por uma sonoridade pacífica e acolhedora, capaz de fazer brotar delicadas sensações no ouvinte, é também o que acaba evitando um melhor desempenho do disco. É como se ao ouvirmos o álbum um estranho sentimento de espera acabasse se materializando, como se o ouvinte esperasse o tempo todo por um ápice que infelizmente acaba não se revelando.

 

Bandarra (2011, Joinha Records)

 

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Mula Manca & A Fabulosa Figura, Vinícius Castro e Cícero
Ouça : Quando Maria me fundou o carnaval e Veja Só

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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