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Disco: “Bécs”, Fennesz

Fennesz
Ambient/Experimental/Electronic
http://www.fennesz.com/

Por: Cleber Facchi

Fennesz

Em 2001, quando apresentou o álbum Endless Summer, o austríaco Christian Fennesz estabeleceu uma espécie de regra para os próprios trabalhos: eles jamais seriam abastecidos pelo óbvio. Passada mais de uma década desde o lançamento daquele que é um dos grandes registros da Ambient Music no novo século, o músico original de Viena, Áustria continua a propagar o mesmo alinhamento complexo de sua obra, exercício que serviu de sustento para os essenciais Venice (2010) e Black Sea (2008), mas que volta a se repetir com certa dose de transformação no interior de Bécs (2014, Editions Mego), mais recente invento do produtor.

“Pai” de toda a uma geração de artistas próximos, como Mark McGuire, Steve Hauschildt e, principalmente, Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), Fennesz utiliza da presente obra como uma espécie de reposicionamento em um cenário aprimorado por ele próprio. De volta ao selo que o apresentou no final da década de 1990, o Editions Mego (casa de Jim O’Rourke, KTL e outros nomes da cena experimental), Christian faz da presente obra um natural regresso estético aos primeiros anos, alimentando ruídos de guitarras como uma ferramenta criativa para o álbum.

Mesmo íntimo da própria essência, a desconstrução ainda parece ser a base para os argumentos conceituais lançados por Fennesz. Enquanto os últimos trabalhos em carreira solo deram conta de mergulhar em referências típicas do drone, tropeçando na obra de Tim Hecker, ao lado de outros compositores, como Sparklehorse (In the Fishtank 15, de 2009) e Ryuichi Sakamoto (Cendre, de 2007), o austríaco resolveu se desfazer da própria autoridade. Com a chegada de Bécs, Fennesz não apenas resgata diversos argumentos, como fragmenta a própria discografia, alimentando um projeto tomado pela tonalidade caótica dos arranjos.

Como as inaugurais Static Kings, The Liar e Liminality imediatamente revelam, o contraste entre a calmaria e a explosão dita as regras de todo o registro. São instantes efêmeros de ruídos controlados e acordes expressivos, mas que imediatamente se convertem em formas abstratas de som. Fragmentos eletrônicos sobrepostos e distorções costuradas sem ordem aparente. Mais do que um álbum, Bécs é um imenso quebra-cabeças que custa a revelar a real composição de suas formas, arrastando o público para dentro de um cenário abastecido em essência pela inexatidão.

Passado o processo de “adaptação” do trabalho, Fennesz volta a presentear o ouvinte com uma canção marcada pela calmaria. Em Pallas Athene, o produtor resgata uma série de referências conquistadas em seus últimos álbuns, principalmente Black Sea. São pouco mais de seis minutos em que o alinhamento brando dos sintetizadores revela o total acolhimento do austríaco. Passagem pacata para o eixo final da obra? Nada disso, apenas um respiro antes da completa imersão criada na faixa-título do trabalho, criação sufocante que cria os principais argumentos para o resultado exposto em Sav e Paroles, as duas últimas e também excêntricas faixas do disco.

Misto de retorno e continuação, Bécs reforça o caráter inventivo de Fennsz – tanto em relação aos temas propostos por ele próprio, como por outros compositores que nele se inspiram. Mantendo firme o sentido abstrato do álbum, o austríaco (mais uma vez) alimenta as experiências do público com uma obra movida pela mudança brusca de direção, afinal, nada permanece exatamente igual ao que abastece inicialmente o disco, guiando a audição por entre curvas, quedas e pequenas incertezas.

 

Fennesz

Bécs (2014, Editions Mego)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Tim Hecker, Mark McGuire e Oneohtrix Point Never
Ouça: Static Kings, The Liar e Pallas Athene