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Disco: “Belong”, The Pains of Being Pure at Heart

The Pains of Being Pure at Heart
Shoegaze/Noise Pop/Indie
http://www.myspace.com/thepainsofbeingpureatheart

Por: Cleber Facchi

Como é reconfortante a sensação de seremos presenteados com um bom disco. É como se momentaneamente pudéssemos nos desligar de tudo apenas para apreciar excelentes fenômenos acústicos fluindo de maneira ordenada, nesse caso, boas doses de guitarras distorcidas e ruídos intermináveis. Nem parece, mas já fazem dois anos desde que fomos surpreendidos por uma das estreias mais interessantes dos últimos anos. Enquanto Animal Collective, The XX e Grizzly Bear brigavam pelo posto de melhor disco de 2009 o quarteto The Pains of Being Pure at Heart veio em surdina e com toda sua sujeira pop nos conquistou.

A mescla de guitarras shoegaze e uma melodia pop encantadora fizeram com que o completo desconhecimento sobre o grupo nova-iorquino fosse preenchido por elogios acalentadores da crítica especializada e principalmente do público, que não exitou em se afundar das espessas camadas e texturas monumentais de guitarras. Dois anos após a memorável estreia Kip Berman, Kurt Feldman, Alex Naidus e a sempre querida Peggy Wang fazem seu retorno e de maneira tão surpreendente que deixa seu debut parecer um mero treino, tamanha qualidade de Belong (2011), seu novo álbum.

Para o recente registro, a banda trouxe Mark “Flood” Ellis, responsável pela produção de pérolas como Með suð í eyrum við spilum endalaus (2008) do Sigur Rós, além da co-produção em álbuns do The Killers, Goldfrapp e PJ Harvey. Entretanto, a presença do produtor não parece ter distanciado muito o quarteto de sua sonoridade inicial, mas acaba dando um reforço energético visível em cada uma das dez pérolas desse álbum, algo que o distancia e muito do resultado alcançado durante a estreia do grupo. Ao mesmo tempo em que a banda denota uma crueza maior em suas canções há por traz um belo acabamento, o que revitaliza o som.

Em Belong, as dores de se ter um coração puro nos encaminham para dois caminhos bem visíveis. O primeiro é o da raiva e evidencia-se logo na largada do álbum, através da canção que nomeia o disco. Embora os vocais de Berman cheguem de maneira adocicada (sempre acompanhados pela suavidade vocálica de Wang) é no peso da instrumentação que a banda trilha seus passos. Se antes o grupo vinha com um ar juvenil, muito por conta dos teclados delicados e da linha de guitarras melódicas, agora é a crueza com um “q” nada sofisticado, que acaba se evidenciando.

Já na sequência Heavens Gonna Happen Now e Heart in you Heartbreak catapultam ainda mais todo o espírito e o peso da banda. As guitarras chegam como uma avalanche de som e distorção impossível de ser controlada. Enquanto no álbum de 2009 toda a instrumentação vinha dentro de uma espécie de nuvem empoeirada em que os acordes tentavam a todo custo aparecer, agora é a limpidez do som (mesmo que ainda embaixo de uma grossa camada de ruídos) que se apresenta. O baixo de Alex Naidus agora disputa espaço de igual para igual com as guitarras dos outros dois instrumentistas, gerando um embate constante ao longo dos quase 40 minutos que compreendem o disco.

Além do caminho da raiva, expresso através do peso e da agilidade das guitarras, a banda entrega também seu lado pacato e até mesmo romântico, este é o segundo direcionamento dentro do disco. Se ao estrearem os nova-iorquinos nos emocionavam com a beleza de faixas como A Teenager In Love ou This love is fucking right, agora o lado mais aflorado do grupo se dissolve em faixas como Even In Dreams. O sentimentalismo da banda vem muito mais pela sonorização do que pelas letras, que assim como no primeiro disco chegam carregadas de uma amargura juvenil que recheia cada mínimo espaço de nossos ouvidos por meio de sua carga sonora abafada e sincera.

Assim como acontece com o Smith Westerns em seu Dye It Blonde (2011), esse segundo álbum do The Pains of Being Pure at Heart é um registro adulto e um exercício coletivo em mostrar todo o potencial do grupo. Se com o primeiro álbum a banda tentava esconder alguns erros no meio de tanta distorção, com Belong nada disso pode ser atestado. O quarteto se apresenta de maneira coerente, como se nesses poucos anos entre um disco e outro a evolução fosse rápida e visível. Tudo funciona de maneira coesa dentro desse álbum, cada faixa está posicionada perfeitamente e devidamente protegida por uma armadura que deve garantir por anos a infalibilidade dessas canções.

Em 2011 Loveless (1991) do My Bloody Velentine completa vinte anos desde que foi lançado. Toda a herança do transgressor trabalho de Kevin Shields e sua banda faz-se visível dentro desse disco dos norte-americanos, quase como uma homenagem ao clássico do grupo irlandês. Qualquer indivíduo que venha relatar como foram bons os velhos tempos do rock alternativo deve imediatamente guardar todas as suas críticas aos sons contemporâneos e sua nostalgia, afinal, o rock é agora e Belong, com toda sua perspicácia em soar novo e referencial ao mesmo tempo é apenas uma simples prova disso.

Belong (2011)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: The Depreciation Guild, Yuck e Smith Westers
Ouça: O disco todo

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