""

Ano:
Selo:
Gênero:
Para quem gosta de:
Ouça:
Nota:

Disco: “Bermuda Waterfall”, Sean Nicholas Savage

Sean Nicholas Savage
Indie/Lo-Fi/Alternative
http://www.seannicholassavage.com/

Por: Cleber Facchi

Sean Nicholas Savage

Mesmo dono de um rico catálogo de faixas avulsas e registros completos lançadas de forma “artesanal” desde a última década, Sean Nicholas Savage só foi apresentado “oficialmente” há pouquíssimos meses. Acolhido pelo selo Arbutus Records – o mesmo de Grimes, Majical Cloudz e outros nomes transformadores da cena canadense -, o dramático artista de Montreal fez de Other Life (2013) uma obra de mudança, eliminando parte do aspecto amador dos primeiros discos para soar acessível, tendência seguida com acerto em Bermuda Waterfall (2014, Arbutus), novo trabalho do cantor.

Distante do aspecto “comercial” do álbum de 2013, Savage pula as melodias semi-detalhistas de faixas como More Than I Love Myself e She Looks Like You para resgatar o toque econômico dos primeiros discos. Guiado em essência pelo uso da voz sofrida do cantor – entregue de forma duplicada, emulado os sons ecoados de um sintetizador -, o novo álbum se revela como (mais) um passeio perturbado pela temática da separação. Uma repetição honesta da fórmula assinada pelo canadense, que volta a se converter na matéria-prima do trabalho.

Longe de solucionar um álbum transgressor ou focado em estabelecer regras próprias dentro da cena recente, Savage usa do registro como uma obra que precisa apenas existir. Da mesma forma que os primeiros discos, caso de Spread Free Like A Butterfly (2009) e Movin Up In Society (2010) – todos disponíveis no site do cantor -, Bermuda Waterfall é uma simples manifestação do sofrimento acumulado de seu criador. Uma espécie de terapia particular e ao mesmo tempo compartilhada, experiência que possibilita ao músico registrar, expor e solucionar a própria depressão.

Dos vocais tímidos ao uso econômico dos arranjos, o ambiente arquitetado para o disco não assume tal enquadramento de forma aleatória. Como bem revela nas confissões de Darkness e Please Set Me Free, Bermuda Waterfall é um disco totalmente abastecido pelas experiências do cantor e dedicado ao próprio. Guiado pelo egoísmo, o músico fornece ao ouvinte um conjunto de canções específicas, faixas tratadas dentro de uma temática efêmera e que podem (ou não) serem absorvidas pelo espectador. Viver o “personagem” triste de Sean Nicholas Savage e a saga construída ao longo de cada disco é uma escolha do ouvinte – como se transformar no protagonista de um livro, filme ou qualquer outra mídia.

Encarado como um expoente da mesma estética de Ariel Pink e do conterrâneo Mac DeMarco – efeito da sonoridade íntima dos anos 1980, além do aspecto Lo-Fi -, Savage parece atuar em um cenário conhecido apenas por ele. Talvez o projeto que mais se aproxime do músico seja o de Devon Welsh e seu confessional Majical Cloudz. Porém, enquanto o vizinho canadense usa da consistência dos vocais para lançar o próprio sofrimento – vide Impersonator (2013) -, Sean Nicholas segue o caminho oposto: sufocando lentamente no próprio recolhimento.

 

Bermuda Waterfall (2014, Arbutus)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Majical Cloudz, Pure X e Ariel Pink’s Hunted Graffiti e
Ouça: Naturally, Heartless e Hands Dance