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Disco: “Bestial Burden”, Pharmakon

Pharmakon
Experimental/Noise/Avant-Garde
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Por: Cleber Facchi

Fígado, ossos, coração, costelas e um bloco cru de carne em decomposição. Por mais gratuita que a fotografia de Bestial Burden (2014, Sacred Bones) possa parecer, a construção perturbadora da imagem reforça o contexto honesto (e nauseante) em torno do trabalho de Margaret Chardiet. “Desejo mostrar [ao público] o corpo como um pedaço de carne e células que se transformam, falham e traem você. Algo banal e sem importância”, explicou em entrevista.

Mesmo instalada em um ambiente próximo de Abandon (2012), o material explorado ao longo do novo registro se movimenta de forma distinta. Como explícito na capa da obra, ou mesmo na voz sufocada da faixa de abertura, Vacuum, o segundo registro do Pharmakon pelo Sacred Bones é um exercício de interpretação de Chardiet sobre o próprio corpo. Gritos, grunhidos, escarro, tosse e toda uma colisão de ecos sujos que parecem reproduzir o lento “apodrecimento” dos indivíduos.

Depois da aproximação da morte no último ano – os médicos retiraram um cisto imenso do corpo da artista – e passar semanas em recuperação no hospital, Chardiet encontrou no isolamento forçado a inspiração para o “fardo bestial” do presente trabalho. Um corpo ruidoso que sobrevive de vozes, batidas e sintetizadores climáticos sempre desconstruídos, como se cada fração do álbum fosse uma representação musical das vísceras e experiências recentes da própria artista. Caos interno.

Diferente do contexto aleatório incorporado nas quatro peças de Abandon, em Bestial Burden cada composição do registro serve de estímulo para a canção seguinte. Ao mesmo tempo em que soluciona temas “harmônicos”, vide a canção de abertura e momentos específicos de Intent of Instinct, blocos de distorção aos poucos derrubam qualquer estágio de conforto. Uma interpretação anárquica dos experimentos de vozes testados por Holly Herndon ou qualquer artista próximo.

Longe de um ambiente melódico ou minimamente “confortável”, Chardiet se concentra apenas em provocar a interpretação do ouvinte. Da capa explícita ao acervo de vocais ruidosos em Body Betrays Itself, a composição estritamente musical do registro logo se converte em uma estranha experiência. É possível até sentir náusea em meio ao condensado gutural de Primitive Struggle, uma faixa que usa samples de vômitos como principal ferramenta de estímulo para os “arranjos”.

Mesmo em uma estrutura atípica, curioso perceber o efeito hipnótico proposto pela obra. Em um ambiente caótico e sujo, distante do público médio, Chardiet dissolve pequenas nuances de voz e até instrumentos que estimulam a curiosidade do ouvinte – seduzido durante todo o processo de formação do registro. Uma necessidade quase primitiva, como desvendar o próprio corpo, pequenos fragmentos orgânicos ou ultrapassar os limites do “impróprio” a qualquer custo.

 

Bestial Burden (2014, Sacred Bones)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Swans, The Haxan Cloak e Holly Herndon
Ouça: Primitive Struggle, Bestial Burden e Autoimmune


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