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Disco: “Bixiga 70”, Bixiga 70

Bixiga 70
Brazilian/Afrobeat/Jazz
http://bixiga70.com/

Por: Cleber Facchi

Bixiga 70

Só quem já frequentou as acalentadas noites do Baile do Bixiga, ou mesmo outras apresentações ao vivo, entende a grandeza que ocupa a obra do coletivo Bixiga 70. Formada em 2011 como uma banda de estúdio para o álbum Taxi Imã, de Pipo Pegoraro, a Big Band paulistana não demorou a escapar do ambiente enclausurado a que estava submetida para apresentar material próprio, dominar os palcos e se transformar em um dos projetos nacionais mais criativos em tempos. Com a chegada do segundo álbum de estúdio, o grupo não apenas potencializa tudo o que conquistou na quente estreia, como parece transportar para o estúdio (e além dele) a mesma grandiosidade das apresentações ao vivo.

Econômico em relação ao registro que a antecede, a obra de “apenas” nove composições condensa a presença do coletivo em pouco mais de 40 minutos, tempo mais do que suficiente para tirar o fôlego do ouvinte (e algumas peças de roupa), sem necessariamente perder as atenções. O que antes era ocupado por faixas seduzidas pelo Dub (Dub Di Malaika), músicas que resgatavam os ritmos africanos em uma transposição atmosférica (Desengano da Vista) e até pequenos “exageros” jazzísticos, hoje se manifesta com leveza e melodias velozes. Como nos palcos, o novo álbum do grupo paulistano é um resumo dinâmico da atuação da banda.

Quem pensa que a busca por um efeito simplificado do debut possa comprometer a rica estética do grupo, só precisa chegar aos domínios da ensolarados Deixa a Gira Girá para perceber que as mudanças em nada prejudicam o desempenho da banda. Adaptação do mesmo arranjo proposto pelo coletivo baiano Os Tincoãs, em 1973, a faixa de abertura da obra instala em pouco mais de seis minutos todo um sentimento de resgate – próprio e referencial – do que caracteriza a obra do Bixiga 70. Dos metais que cheiram a Miles Davis em Sketches Of Spain (1960) aos batuques africanos, das guitarras voláteis ao canto imaginário que ocupa toda a faixa, a quentura dos arranjos comprova apenas o óbvio: evolução.

Desenvolvido como uma obra única, arquitetada de forma visível por atos que marcam crescimento, ápice e encerramento planejado, o presente disco, diferente do trabalho anterior, ameniza nas composições um forte sentimento de aproximação – seja entre os sons, ou simplesmente entre os próprios companheiros de banda. Cada peça do álbum parece desenvolvida de forma cuidadosa, em um efeito de quase necessidade, como se ao abandonar o caráter de Jam Session exposto no último disco, a banda promovesse um exercício minucioso dos arranjos, harmonias e até de pequenos experimentos. Surgem assim músicas como Kriptonita e Ocupai, faixas que até se vestem com a roupa colorida do álbum passado, mas que transportam o grupo para um cenário pontuado pelo ineditismo.

Dos terreiros ao Pará, a busca por pequenos traços da música nacional revela outra manifestação capaz de tingir o disco com novidade. Reforços como o Carimbó e distintos toques da cultura nortista são parte significativa no maior aquecimento do disco, algo que a dançante Kalimba revela com um suadouro instrumental típico da região equatroriana. Mais do que o olhar atentamente aos arredores, com o novo disco o manuseio dos ritmos além-mar se amplifica. O afrobeat de Fela Kuti, facilmente identificável no primeiro álbum, agora abre espaço para o Ethio-jazz de Mulatu Astatke, ou mesmo outras manifestações talvez convencionais do Jazz norte-americano, algo que Tangará sustenta sem grandes dificuldades.

Diferente do debut, em que o manuseio das canções parecia engenhar as bases para um trabalho de crescimento ao vivo, logo nos primeiros instantes do novo álbum o ouvinte se percebe encharcado, como se, mesmo sem sair de casa, tivesse corpo e a mente transportados para a frente do palco. O Baile do Bixiga agora habita o estúdio. Capaz de atender às exigências do grande público, o registro autoriza durante toda a execução das faixas uma série de efeitos facilitadores, como se o jogo colorido das guitarras e a presença nada complexa dos metais abrissem caminho para um resultado que, embora complexo, se permite brincar e seduzir durante todo o tempo.

 

Bixiga 70

Bixiga 70 (2013, Independente)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Sambanzo, Guizado e Curumin
Ouça: Kriptonita, Ocupai e Retirantes

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