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Disco: “Black Up”, Shabazz Palaces

Shabazz Palaces
Experimental/Hip-Hop/Rap
http://shabazzpalaces.com/

Se você pensava que de Seattle viriam apenas os expoentes do grunge ou do rock alternativo dos anos 90, então a dupla Shabazz Palaces irá mudar a sua concepção do que é produzido nas úmidas terras do norte. Comandado pela dupla de produtores Palaceer Lazaro e Tendai Maraire, o projeto faz parte da nova safra do hip-hop norte-americano, que busca apresentar diferentes possibilidades de fazer som dentro do famigerado gênero, hoje tomado pelo excesso de trabalhos comerciais e descabidos de mínimas qualidades técnicas.

Talvez se não fossem pelos versos rimados e pelas batidas levemente características, definir o trabalho do duo como “Hip-Hop” seria praticamente um erro, afinal, a sonoridade exposta pelos dois “rappers” está muito mais voltada para a música experimental do que para o rap em si. Embora os versos ainda sejam uma das engrenagens que movimentam o trabalho, o grande centro de Black Up (2011) está na forma inconstante com que as batidas, bases e sons ocasionais são lançados. Construído de forma despretensiosa, porém ousada, o álbum – precedido de Of Light e um disco homônimo, ambos lançados em 2009 –  se revela como um dos produtos mais inovadores lançados até o momento.

Se as batidas eletrônicas trabalhadas de maneira límpida e padronizada são os elementos que conduzem boa parte dos trabalhos ligados ao rap, aqui pelo menos elas são desenvolvidas da maneira mais instável possível, carregadas de ruídos, métricas imprecisas e interferências constantes. Por sua vez, os versos proferidos pela dupla acabam por se adaptar ao seguimento jogado pelo ritmo, sendo em vários momentos interrompidos ou rapidamente reposicionados para seguir a mesma levada. É quase como se a música ganhasse vida e fosse ela quem conduzisse o álbum, e não o duo de produtores, ficando a todo momento expostos às exigências das batidas.

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A partir do momento em que você adentra ao universo singular do álbum – que abre de forma até “tradicional” com a faixa Free Pass and Curl – é como se você adentrasse um gigantesco labirinto, onde qualquer lei da física torna-se simplesmente inoperante, com as paredes mudando suas direções, o teto virando o chão e nada mais fazendo sentido, quase uma versão sonora da ilustração Relativity do holandês Escher. Quanto mais estranha, cacofônica, e instável seja a faixa, mais acabamos dentro do suposto labirinto, e por incrível que pareça: não há vontade nenhuma em sair dele.

O mais incrível dentro do álbum talvez seja a precisão com que Lazaro e Maraire dissolvem todas suas experimentações em composições curtas (nenhuma das faixas toca os cinco minutos), mas que estranhamente começam a se desdobrar, como se estivéssemos há horas dentro da mesma faixa (efeito do “labirinto”?). Mesmo tomado por uma atmosfera abstrata – que se intensifica em faixas como Endeavors for never (The last time we spoke you said you were not here.  I saw you though) – o trabalho se organiza de forma profundamente orgânica, com a percussão de Tendai temperando cada uma das faixas, mesmo naquelas em que loopings sintéticos e efeitos artificiais intensificam suas ações.

Em alguns momentos é possível encontra semelhanças com os primeiros discos do Prefuse 73, ou em menor escala alguns toques de Lotus Flower, mas são apenas momentos, já que a inconstante sonoridade da dupla logo nos arremessa para novas formas, texturas e cenários ainda mais distintos e inconstantes. Não espere encontrar qualquer semelhança com algum outro disco do hip-hop contemporâneo – talvez Death Grips, talvez – afinal, a excentricidade vívida da dupla esbanja um ineditismo poucas vezes visto na música, onde todas as fórmulas soam efêmeras e cada segundo parece diferente do anterior.

Black Up (2011)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Prefuse 73, Death Grips e Lotus Flower
Ouça: Endeavors for never