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Disco: “Blackheart”, Dawn Richard

Dawn Richard
Electronic/R&B/Soul
https://www.facebook.com/DawnRichard

Dawn Richard sempre investiu em uma sonoridade autoral, distante do pop-R&B-soul que caracteriza grande grande parte da produção estadunidense. Basta observar no trabalho com as parceiras do Danity Kane, em que músicas divididas entre a cantora e diferentes produtores – caso de Strip Tease e Lights Out – esboçavam um maior refinamento quando comparadas ao restante da obra. Mais uma vez em carreira solo, agora com o terceiro álbum em mãos, Richard continua a desvendar a própria essência, articulando temas e confissões intimistas como o elemento central de Blackheart (2015, Our Down).

Originalmente previsto para outubro de 2013, porém, adiado por conta das gravações de DK3 (2014), terceiro e último álbum do Danity Kane, Blackheart parece ser o trabalho em que Richard mais se concentra em testar os próprios limites – sejam eles rítmicos, líricos ou vocais. Tão próxima da década de 1990 como íntima da recente safra do Soul/R&B, a cantora imediatamente se converte em um instrumento flexível, dançando de forma sutil aos comandos de Noisecastle III, produtor central do registro.

Volátil e ainda acomodada em uma estrutura homogênea, como um cercado instrumental de bordas bem definidas, Richard interpreta Blackheart como uma adaptação obscura da mesma colisão de ritmos apresentados em Armor On EP, de 2012. Uma massa leve de R&B, soul, Drum and Bass e elementos da House Music que aproximam (musicalmente) todas as faixas do disco. Parte expressiva desse resultado está na participação de Richard como co-produtora da obra, ocupando cada lacuna ou possível quebra entre as canções.

Com a voz limpa, acompanhada apenas de bases minimalistas e um arranjo de cordas comportado, a inaugural Noir parece resumir e ainda estabelece toda a sequência de regras para as canções tecidas ao longo do disco. “Eu pensei ter perdido tudo / Eu percebo que lágrimas cairão… Tentando encontrar o meu caminho“, partindo de um explícito ato de confissão, Richard acomoda o ouvinte na base sorumbática do álbum, oficialmente, a segunda parte da trilogia The Black Era, uma conceitual obra de separação inaugurada em Goldeheart (2013).

Mesmo conceitualmente próximo do trabalho lançado há dois anos, não é difícil perceber nos versos do novo álbum uma estrutura completamente distinta em relação ao antecessor. Como uma atriz, centrada na interpretação de sentimentos, desilusões amorosas e temas universais, Richard transformou Goldeheart como uma obra acessível, naturalmente íntima de qualquer ouvinte sufocado pela dor de um relacionamento fracassado. Com Blackheart, o oposto. Blow, The Deep ou Castles, não importa a faixa: cada fragmento do disco reflete um aspecto doloroso e íntimo da recente fase de Richard.

Reflexo de toda essa “exposição” sentimental por parte da cantora, curioso perceber em Blackheart a formação de uma obra ainda mais acessível e “universal” quando próxima de Goldeheart. Mesmo que os temas ressaltados no decorrer do álbum sejam desvendados em essência somente pela cantora, ao tremular os vocais, explorar atos curtos e sensíveis ou mesmo brincar com uma base econômica, sempre obscura e triste, Richard entrega todos os elementos para a completa compreensão do disco. Outrora interprete de sentimentos e histórias amargurados, hoje a cantora se converte em uma personagem a ser interpretada pelo próprio público.

 

Blackheart (2015, Our Down)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Tinashe, Ciara e Kelela
Ouça: Blow, Adderall e The Deep