Disco: “★ (Blackstar)”, David Bowie

David Bowie
Rock/Alternative/Art Rock
http://davidbowie.com/blackstar/

I’m not a popstar
I’m not a film star
I’m not a wandering star
I’m a blackstar, I’m a blackstar

A negativa sequência de versos espalhada nos instantes iniciais de Blackstar apontam a direção do 25º álbum de estúdio de David Bowie. Em ★ (2016, RCA / Columbia), segundo registro de inéditas do cantor e compositor britânico desde o regresso com The Next Day, de 2013, um catálogo de temas sombrios, pessimistas e essencialmente cotidianos se agrupam de forma a sufocar o ouvinte. Um misto de reverência e reinvento que passeia por elementos da discografia do cantor, mas que em nenhum momento ecoa como uma gasta reciclagem de ideias.

Imerso em uma solução de temas “jazzísticos” e experimentos anteriormente testados em obras como Station to Station (1976) e Heathen (2002), ★ mostra um artista que conseguiu alcançar a maturidade, porém, continua em busca de novas ferramentas, ritmos e possibilidades a serem exploradas em estúdio. Da sonoridade flexível e detalhista de ‘Tis a Pity She Was a Whore aos entalhes eletrônicos de I Can’t Give Everything Away, poucas vezes o título de “camaleão do rock” de Bowie pareceu tão coeso.

Mais uma vez acompanhado pelo produtor Tony Visconti, parceiro desde o clássico Space Oddity, de 1969, Bowie, para além do próprio universo de temas e conceitos autorais, faz de ★ uma obra entregue ao domínio de novos colaboradores. Nomes como Jason Lindner, Donny McCaslin, Ben Monder e Mark Guiliana; um verdadeiro time de personagens ativos na cena nova-iorquina de Jazz. Da mesma Nova York vem o produtor James Murphy (LCD Soundsystem), responsável por parte da percussão e encaixes eletrônicos que sustentam o disco.

Dentro desse cenário de permanente mutação, Bowie apresenta ao público uma obra que dialoga com o caos. Conflitos urbanos, sociais e pessoais que ultrapassam os limites da identidade visual proposta para o clipe de Blackstar e crescem nos versos de cada canção. “Ver mais e sentir menos / O não que significa sim / Isso é tudo que eu sempre quis dizer / Essa é a mensagem que enviei”, canta o veterano em I Can’t Give Everything Away, faixa que mergulha no isolamento dos indivíduos e ainda brinca com o simbolismo sombrio, por vezes religioso, que abastece a obra.

Terceira faixa do disco, a densa Lazarus nasce como uma espécie de síntese das canções que abastecem ★. Da base jazzística que cresce lentamente, passando pela lírica repleta de metáforas sobre a morte e elementos ocultistas, Bowie finaliza uma composição que não apenas dialoga com a passagem bíblica da ressurreição de Lázaro, como analisa aspectos da própria carreira do cantor. De fato, a presença de Bowie como protagonista do trabalho se revela a cada nova sequência de versos. Um protagonismo explícito, mas que em nenhum momento interfere na relação do ouvinte com o álbum, vide a empática sensação reforçada pelos versos de Dollar Day – “Eu estou morrendo também”.

Inspirado pelo trabalho de Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly (2015), Bowie faz de ★ uma obra que dialoga com o presente. São faixas como Dollar Days, I Can’t Give Everything Away e Lazarus que distanciam o cantor do isolamento quase “divino” dos últimos trabalhos em estúdio, fazendo do presente álbum a obra mais provocativa desde o último suspiro dançante de Bowie no começo dos anos 1980.

 

★ (2016, RCA / Columbia)

Nota: 8.7
Para quem gosta de: Brian Eno, Morrissey e Paul McCartney
Ouça: Blackstar, Lazarus e I Can’t Give Everything Away

Tagged , , , , , , , , , , , ,
teste

2 thoughts on “Disco: “★ (Blackstar)”, David Bowie

  1. Monday says:

    Eu gostei muito desse disco, confesso que não tinha ouvido nenhum do David. Eu li que ele se inspirou em Death Grips nesse álbum também, eu consegui perceber isso… As faixas Blackstar e Girl Loves Me tem uma pegada bem característica deles… R.I.P.

  2. Denis says:

    Por pouco não Chorei ao escutar.
    Perdemos um gênio ainda completamente são que se entrega ao destino inevitável
    Álbum denso, porém não cansativo, centrado no tema da morte que ele sabia que já estava por vir..
    O álbum já é muito bom, mas as circunstâncias deixam ele uma obra prima de despedida, ao lado campo de trigo com corvos de Van gogh, outro gênio.. RIP

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *