Disco: “Cadafalso”, Momo

Categories Resenhas

Momo
Brazilian/Singer-Songwriter/Indie
http://www.momomusica.com/

 

Por: Cleber Facchi

Momo

Marcelo Frota é um desconhecido. Autor de obras que parecem distantes do grande público, o cantor e compositor encontra nesse afastamento a possibilidade de revelar um universo tão rico e confessional quanto o que sustenta o recente Cadafalso (2013, Independente), quarto e mais novo registro carreira do músico sob o título de Momo. Tão sombrio e peculiar quanto os projetos que o antecedem, o novo álbum se afasta do porto seguro firmado em Serenade For a Sailor (2011), deixando de lado a multiplicidade dos sons para mergulhar sem medo na escuridão abusiva e no toque intimista daquela que parece ser a obra mais crua do carioca até aqui.

Trilhando um percurso inteiramente coberto pela sombra, Frota traz no minimalismo e na uniformidade tímida de voz e violão um tratamento amargo que se revela logo no título da obra. Palanque para a execução de criminosos à forca, o cadafalso de Momo é composto de apenas nove degraus, todos sustentados na melancolia plena de um passado-presente que se estende desde a estreia do músico com A Estética do Rabisco (2006), e posteriormente foi aprimorada no sofrimento de Buscador (2008). Entretanto, ao alcançar o quarto álbum os percursos são outros. Momo parece finalmente ter aceitado sua condição, tratando de cada faixa como um passo em direção a própria forca que ajudou a preparar nos últimos anos.

Com uma estrutura intimista, cada instante no decorrer da obra se manifesta como uma representação sofrida da individualidade do artista. Dos vocais brandos, aos entalhes simples que compõem o uso dos violões, até o uso de um Harmônio na rápida Tema em Estéreo, cada porção do trabalho é assinada pela presença única de Frota, que alcança nesse recolhimento a obra mais honesta de sua carreira. Mesmo os versos coerentemente divididos com o catarinense Wado (em Sozinho, Copacabana ou na faixa-título) parecem partir do mesmo princípio solitário que inaugura a faixa de abertura do disco. Momo está definitivamente sozinho.

Momo

Como se acompanhasse cada passo dado pelo músico rumo a forca, o ouvinte lentamente encontra nas confissões do compositor um caminho para entender as próprias amarguras. Momo fala sobre ele, mas talvez esteja de frente para o cadafalso, observando o caminhar silencioso do próprio ouvinte rumo ao fim. Mesmo oculto por metáforas ou anseios de nítida manifestação particular, o artista canta sobre a ausência e o abandono em linguagem universal, não apenas sobre amores que não deram certo, mas sobre o afastamento inevitável dos amigos, a solidão de quem trilha as ruas de qualquer cidade durante a noite ou mesmo da solidão da morte, tema que circunda a quase totalidade das canções presentes no disco.

Parte da angústia que alimenta o álbum está diretamente relacionada com o ambiente em preto e branco que orienta o instrumental do trabalho. Hermético, o registro assume por diversas vezes a construção de um cenário desprovido de luz, como se apenas a os sons simples do violão servissem de sustento para o ouvinte passageiro. A proposta parece vir de um exercício lento, como se a cada novo disco Momo se desprendesse de parte significante dos instrumentos, alcançando o presente álbum apenas com um violão em mãos e a força presente dos vocais – nunca tímidos, porém, cada vez mais inclinados ao sombrio.

Mesmo que seja possível relacionar diversos aspectos do presente registro com tudo aquilo que Momo alcançou há dois anos, não há no novo disco a esperança que Frota alimentava na extensão de Serenade For A Sailor. Enquanto no trabalho passado o carioca navegava na imensidão de um oceano cinza em busca de um farol ou possível ponto firme para os próprios sentimentos, logo nos acordes iniciais o músico deixa claro que segue desprovido da mesma esperança, fazendo de Cadafalso uma despedida em cada faixa.

 

Cadafalso

Cadafalso (2013, Independente)

 

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Marcelo Camelo, Cícero e Wado
Ouça: Sozinho e Cadafalso

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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