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Disco: “Capsule’s Pride”, Bwana

Artista: Bwana
Gênero: Electronic, Experimental, Ambient
Acesse: http://luckyme.net/bwana/

– Nós ainda não temos o poder
– Mas um dia teremos
– Por que já começou

Ainda que a frase de encerramento de Akira, filme de 1988 dirigido e criado por Katsuhiro Ôtomo, se relacione diretamente com a trama apresenta na obra, difícil não perceber a evolução do trabalho – película ou mangá – como um poderoso fenômeno cultural. Uma ativa herança conceitual que se manifesta em diferentes produtos midiáticos – como séries, filmes e livros -, alcançando no recente Capsule’s Pride (2016, LuckyMe) um de seus melhores exemplares.

Produzido pelo canadense Nathan Micay – que aqui se apresenta sob o título de Bwana -, o registro de nove composições “inéditas” nasce como uma inteligente reciclagem de grande parte da obra apresentada há quase três décadas. Diálogos, ruídos, efeitos e até mesmo trechos extraídos da trilha sonora original do filme – assinada pelo coletivo japonês Geinō Yamashirogumi – se transformam em instrumentos nas mãos do artista de Toronto.

Em uma estrutura linear, seguindo de perto a sequência de eventos que marcam a animação de 1988, Micay brinca com grande parte da obra assinada por Ôtomo de forma instável, criando uma espécie de ponte para um território dançante, particular. Da abertura do disco, com The Capsule’s Pride (Bikes), passando por faixas como Failed Escape (Where you Belong) e The Colonel’s Mistake, The Scientist’s Regret, cenas e diálogos são cuidadosamente adaptados em um poderoso remix.

Nomes de personagens – “Akira”, “Tetsuo”, “Kaneda” e “Kei” – e até cenas inteiras que se repetem de forma cíclica dentro das batidas e temas eletrônicas do canadense, alimentando a base urgente que conduz o álbum até o últimos instante. Mesmo a trilha sonora de Geinō Yamashirogumi surge de forma picotada no interior obra, como se Micay extraísse apenas o que há de mais marcante no trabalho – vide a reciclagem das vozes em coro e toda a percussão “futurística” pensada para a película.

Com base nesse material, Bwana divide Capsule’s Pride em duas metades completamente distintas. De um lado, composições tão frenéticas quanto o segundo ato da animação, caso de músicas como Nightfall In Neo-Tokyo e The Colonel’s Mistake, The Scientist’s Regret. No outro oposto, uma coleção de músicas pensadas de forma climática, conceito explorado em Kiyoko’s Vision e, em menor quantidade, na derradeira K&K (Lovers In the Light).

Produzido em meio a uma sequência de grandes relançamentos e obras focadas em trabalhos que marcaram a cultura pop japonesa – como a trilha sonora de Street Fighter II e o vinil colorido de PokémonCapsule’s Pride assume um caminho isolado, curioso. Longe da simples reciclagem de ideias, Nathan Micay estabelece um conjunto de regras próprias, adaptando com identidade (e de forma respeitosa) o trabalho de Katsuhiro Ôtomo e Geinō Yamashirogumi.

 

Capsule’s Pride (2016, LuckyMe)

Nota: 8.2
Para quem gosta de: Burial, Jacques Greene e XXXY
Ouça: The Capsule’s Pride (Bikes) e The Colonel’s Mistake, The Scientist’s Regret